sexta-feira, 28 de abril de 2017

A infeliz naturalidade do abuso


   Quem nunca ouviu falar ou presenciou um caso de abuso sexual? A maioria das pessoas pode se lembrar de um caso ocorrido ainda nesta semana. E o pior disso tudo é que a constância dessas notícias não nos faz reagir contra, e sim, traz acomodação. Isto é inaceitável.
   O abuso sexual não deve ser entendido somente como a consumação do ato. De forma alguma. O menos agressivo abuso, seja um convite indesejado e insistente, seja travestir em elogio a objetificação da mulher em um produto é tão criminoso quanto a deflagração de um estupro. Este trato brando sobre assuntos que ferem a mulher decorre da construção social que ainda é vigente, especialmente em localidades mais pobres; a estrutura machista que torna menor os grandes problemas próprios desde modo social. É um problema comportamental.
   Não naturalizem o abuso. É covardia com quem o sofre, que acaba calada pelo medo e por essa naturalidade inventada. Isso mesmo, a mulher que sofre acaba aceitando o abuso como algo comum e sem importância. Esta ideia é reforçada por quem a cerca, inclusive mulheres. Cria-se, então, a cadeia fechada do abuso sexual, pautada no machismo e no silenciamento.
   É preciso romper esta cadeia atacando os elos mais fracos – os olhares invasivos, os “elogios” objetificadores e os toques sem permissão, todos, infelizmente, tão naturalizados.



sábado, 8 de abril de 2017

Para repensar o jornalismo


  No sétimo dia de abril é comemorado o Dia do Jornalista no Brasil. Isto porque há 187 anos morria Libero Badarò, assassinado por exercer seu ofício. O jornalista incomodou parte da elite política por dar voz aos cidadãos comuns. A repercussão de sua morte levou a abdicação do Imperador D. Pedro I em 7 de abril de 1831. A mesma data foi escolhida para a fundação da Associação Brasileira de Imprensa um século depois e, desde então, este dia é o Dia Nacional do Jornalista.

 Em uma profissão que acompanha os cidadãos em seu cotidiano, sendo mensageiro do mundo, sempre é tempo de repensar o jornalismo. Para isso, entrevistamos dois personagens dessa discussão. Luiza Braz (21), aluna do quarto período de jornalismo da FACHA e Camila Côrtes (26) que trabalha no canal à cabo SporTV.

  Uma das maiores mudanças recentes para o jornalista é a não obrigatoriedade do diploma. Para ambas as entrevistadas, não é preciso ser formado para ser um bom profissional. “Vários bons jornalistas não possuem diploma”, lembrou Luiza. “Mas a faculdade ajuda muito dando base teórica para a prática”, ponderou. Para Camila, “Querer buscar a informação e contar uma história” independe da formação acadêmica

  No mundo atual é impossível não inserir o tema redes sociais em qualquer debate. A visão positiva sobre adventos modernos envolvendo o jornalismo parece ser uma constante. “Acho um complemento do trabalho dos veículos tradicionais. Quanto mais informação, melhor”, disse a aluna Luiza Braz. Em complemento, Camila ressaltou que conhecimento é poder: “Uma convocação no mural do Facebook provocou a Primavera Árabe; tudo é ferramenta da informação. Se deter o meio de propagação de notícia é o maior poder em uma sociedade bem informada, então difundir e popularizar esses meios é a maior maneira de tornar uma sociedade consciente.”

  Sobre a censura e manipulação, ambas as entrevistadas apresentam uma visão esclarecida sobre a situação corporativa que sustenta o jornalismo. Para Luiza, “Não há como combater” os males da profissão. Isto porque, segundo ela, “Cada veículo é uma empresa, assim ele vai informar de acordo com seus princípios” e dá a dica para não ser afetado por esta posição empresarial: “O que se deve fazer é pesquisar nas diversas fontes disponíveis.” Trata-se de interesses das linhas editoriais, para Camila: “Enquanto os jornalistas são responsáveis por editar e recortar o que não lhes interesse da notícia também lidam com as influências externas da maneira que recebem os materiais e suas fontes. A informação é dada do ponto de vista de quem conta”. A censura que muitas vezes parte do próprio veículo é “o extremo do abuso de poder e do corte de liberdade”, para Camila Côrtes, que complementou: “É saber usar o personagem certo com a sonora certa. A frase bem escrita no off. Uma construção que permita a passagem da informação.”

sábado, 1 de abril de 2017

Édipo em Incêndios


O filme Incêndios (Denis Villeneuve, 2010) é uma obra de reconhecida qualidade que, em uma observação equidistante aos enlatados blockbusters, inova com antigas tramas narrativas.


É possível pinçar inspirações diretas ou indiretas às histórias que moldaram o pensamento ocidental. O roteiro é permeado de referências à personagens bíblicos, como "Cain e Abel" "Moisés" e "Jesus", e à mitos romanos e gregos, tais como "Rômulo e Remo" e "Édipo Rei". E é com este último que o filme tem seu flerte mais forte.


A peça de Sófocles vai fundo no caráter imutável - e doloroso, do destino. Em uma sucessão de tentativas de se desgarrar das tórridas profecias, Laio e seu filho, Édipo, acabam por se encontrar e fazer valer todas as palavras do Oráculo. Jocasta, viúva de Laio e esposa do próprio filho, acaba sendo mais uma vítima dessa tragédia.


O dramaturgo grego é despejado em Incêncios sem superdosagem. É exato. As semelhanças óbvias transpassam o momento de abandono do filho por Nawal (Lubda Azabal), acreditando ser o ideal a se fazer, passando pela busca por um novo e melhor lugar para se viver - a saída de Édipo de sua cidade natal. Entretanto, um novo lugar implica diretamente em mudanças de percepções. Com isso, Nawal enfrenta sua Esfinge de cara limpa, um gatilho importante que muda o universo da personagem principal - nas duas histórias. De uma forma muito mais chocante, surpreendente e perturbadora, mãe e filho se reencontram.


O enfoque, então, é que ninguém é capaz de seguir seu próprio caminho. Estamos todos - e aparentemente os heróis mais ainda, presos a uma via crucis impiedosa do destino. Ai daquele que tente burlá-lo.

domingo, 6 de novembro de 2016

Outra vez segunda-feira



   Outra vez segunda-feira, o relógio despertou, eu não. Em cima da hora me vi na rua arrumado e estressado junto de todas aquelas pessoas apressadas.
   Outra vez segunda-feira e o ônibus custa a cruzar a esquina em minha direção. Não me consola o fato de não ser somente eu. O estresse das manhãs de segunda afeta todos, aparente nas pernas agitadas e olhares impacientes numa dessas bucólicas ruas da Lapa ou Catete, já não faz diferença. A irritação do início da semana é sempre a mesma, alheia ao endereço.
   A chuva que se anunciava nas pesadas nuvens acima de mim gota à gota transbordava meu mau-humor. Fez também uma revoada de pombos fugir da praça e buscar abrigo na marquise ao meu lado. Neste momento vi meu ônibus surgir na esquina. Minha segunda parecia melhorar, afinal. Não! Mais uma vez engano, como geralmente acontece. Um dos malditos pombos me trouxe de volta para aquela segunda-feira. Camuflado dentre muitos pingos de chuva, o desgraçado cagou no meu terno.
   Outra vez segunda-feira e eu me atrasei, não peguei o ônibus, não fui ao trabalho.


quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Tão antiga

Quão certo estou a idade que tanto vi e quase nada aprendi?
Abrir um pensamento com um questionamento e não uma certeza
é preguiçoso como todos os anos que me passaram
por cima
E isso já responde muito
preguiça

Eu estou certo do que não aprendi, não aprendo
Não aprendi sobre o amor
Amizade, morte, família, esoterismo
Não aprendi a arrumar minha cama
lasanha, banho no cachorro
Eu não aprendi a beber, nem trabalhar
e trabalhando aprendi a beber, sem plenitude
desaprendendo a trabalhar
Eu nunca soube responder perguntas diretas:
quem é você? Vamos?
Eu jamais soube o pensamento, nem meu
O sofrimento do animal

Aprender é tão irreal que parece livro de autoajuda
que ajuda o autor, não o comprador
e portanto nem deveria existir, autor 
Anos a fio, branco
não explicam quem eu sou

Se sou, não poderia ser
Perceba: a expectativa, o brilho, a vontade
diminiu
Não tenho vontade de ser, nem de nenhuma outra expectativa
O que adianta querer viver se sobre a vida poder nenhum possuo?

Tudo me tem, nada seguro

Eu quis voar, me apedrejaram
Eu quis estar no chão, me aterraram
Amarrado

Quão limitado é ser jovem
Quanta jovialidade é ser limitado quando adulto

Foi bom
Tão bom que temo ter sido ilusão líquida

Quão velho sempre estive
e aqui a felicidade é uma ideia antiga

Tão antiga