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segunda-feira, 1 de maio de 2017
O menino Armin
- Pensei em ser escritor. Seria um radicalista dentro da minha família. Um radical sem bombas, sem armas, só letras e personagens. – contou Armin, de treze anos. A poesia parecia fluir naturalmente para ele, ainda que – Nunca li um livro, só a Torá. – Confessou. O garoto vive num pequeno vilarejo entre grupos terroristas e instalações militares. O governo não interfere ali.
Os jornalistas aqui para reportar a situação dessa gente são bem-vindos em toda casa. São pessoas carentes ainda que pouco esperançosas. É um ato heróico sonhar nessas terras onde o sono é interrompido por explosões e tiros. Há nove dias eu vejo isso onde vive Armin e ele é o único que tenta levar uma vida normal, indo à escola, brincando e pensando no futuro.
- Meu pai tinha dito que esse ano eu deveria começar a trabalhar com ele no armazém, mas saquearam a loja, queimaram os armários e não sobrou quase nada. – Armin dizia sentado em um caixote, de frente para mim. Nós costumávamos conversar sempre depois do almoço. Ele me contava sobre seus familiares, sobre o que ele enxerga da guerra e sobre seu dia – E hoje Milad não foi para a aula. A professora disse que ela e os pais embarcaram em um navio de refugiados. Eu não sei para onde eles foram. – Provavelmente não fazia sentido sair de seu país, uma vez que o pequeno nunca soube o que é a paz.
Naquele dia fomos jogar bola. Ele se divertia ainda que fossemos péssimos. E eu fazia questão de pegar a bola surrada e chamar os outros garotos. Em momentos como este até as crianças sem infância no rosto conseguiam sorrir de forma inocente.
- Eu não gosto tanto de rezar. – Armin me disse baixinho, antes de correr para os afazeres de sua religião. Aos treze os meninos judeus se tornam Bar Mitzvah e uma de suas funções é a leitura matinal da Torá durante um certo período.
Ontem, quando encontrei com Armin, ele parecia apático me observando a arrumar as câmeras. Eu perguntei o que ele tinha e ele balançou a cabeça em negação. Eu não gravei nossa conversa naquele dia. Foi a única vez que o vi chorar.
- Meu avô morreu. – o garoto havia sido criado pelo avô até os oito anos. Quando a guerra civil iraniana avançou sobre a cidade onde viviam, a família se afastou dos rebeldes, deixando o avô, avó e um tio para trás. – Ele não queria abandonar nossa casa.
Hoje, quando deixo o Irã e retorno ao Brasil, não achei Armin. Não encontrei seus pais e nem seus irmãos. Todos que viviam naquele casarão meio à zona de guerra haviam deixado o local. No banco onde eu registrava em vídeo as conversas com o menino Armin, o próprio deixou uma carta.
“Este é meu primeiro escrito, Renato. Desculpe a letra ruim, ainda vou aprender a escrever como você. Peço desculpas também por não me despedir, meu pai nos apressou quando ainda estava escuro e está colocando as coisas em um carro cheio de pessoas estranhas. Eu quero agradecer a todas as coisas que você me falou sobre seu país, sobre sua família e como prometi não deixarei meus sonhos de lado. Eu acho que para onde estamos indo eu vou ter mais chances de escrever algo bom. Ah, decidi que contarei a história do meu avô Siamak. Preciso ir, adeus.”
domingo, 6 de novembro de 2016
Outra vez segunda-feira
Outra vez segunda-feira, o relógio despertou, eu não. Em cima da hora me vi na rua arrumado e estressado junto de todas aquelas pessoas apressadas.
Outra vez segunda-feira e o ônibus custa a cruzar a esquina em minha direção. Não me consola o fato de não ser somente eu. O estresse das manhãs de segunda afeta todos, aparente nas pernas agitadas e olhares impacientes numa dessas bucólicas ruas da Lapa ou Catete, já não faz diferença. A irritação do início da semana é sempre a mesma, alheia ao endereço.
A chuva que se anunciava nas pesadas nuvens acima de mim gota à gota transbordava meu mau-humor. Fez também uma revoada de pombos fugir da praça e buscar abrigo na marquise ao meu lado. Neste momento vi meu ônibus surgir na esquina. Minha segunda parecia melhorar, afinal. Não! Mais uma vez engano, como geralmente acontece. Um dos malditos pombos me trouxe de volta para aquela segunda-feira. Camuflado dentre muitos pingos de chuva, o desgraçado cagou no meu terno.
Outra vez segunda-feira e eu me atrasei, não peguei o ônibus, não fui ao trabalho.
domingo, 15 de novembro de 2015
domingo, 30 de agosto de 2015
A Alemãzinha
Peçanha, um amigo de idas e vindas, me convidou para passar o final de semana em sua pousada, em Arraial do Cabo. Era baixa temporada e inverno. Ele prometeu que o local seria todo nosso. Eu logo arrumei a bagagem e em poucas horas de uma viagem sonolenta estava na cidadezinha. Desci uma ruazinha pouco iluminada de paralelepípedos desnivelados onde ninguém mais andava. Cheguei à pousada “Vermelha” acompanhada pelo frio e uma sensação estranha causada pela ausência de pessoas pelo caminho, ainda mais para uma mulher de trinta e dois anos medindo um metro e sessenta de altura.
Andei pela varanda de frente para a praia buscando através das portas de vidro alguma alma viva. Mas não. E a dita sensação estranha cresceu ao sentir-me completamente abandonada. Resolvi entrar. O silêncio era absoluto. Ouvia, apenas, as ondas agredindo a areia branca lá fora num ritmo despreocupado e constante.
Estava na sala principal, onde as pessoas tomavam seu café da manhã, e ali esperei por poucos minutos, até ser incomodada pela lembrança do que Peçanha havia me dito; que eu fosse até o quarto 207. Direcionei-me a escada. Os degraus curtos e um estranho nervosismo me fizeram trançar o passo, cair e quase bater a cabeça no chão. As coisas não estavam à meu favor naquele dia. Acordei aos vômitos por algum chilique estomacal, com pressa tinha arrebentado o zíper da minha mala e o taxista que me trouxera era um tipo beberrão mal-educado. Esperava que aquele final de semana valesse, e não queria passar por ele com um galo na testa.
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