terça-feira, 29 de julho de 2014

O dono da dor



  No início da noite de hoje, eu a vi. Estava perto e intocável. Não pelo vidro translúcido da janela do ônibus, mas pela covardia minha. Afinal, mesmo que eu pudesse sentir sua respiração, me faltaria voz, ato.
   No início da noite de hoje, no ônibus silenciado pelos fones, conheci o Acaso, o dono da dor. O Acaso é cruel. Inescrupuloso. Perverso. E outros adjetivos similares. Ele, o Acaso, tornou alguns segundos despretensiosos em momentos de martírio. Permitiu que eu a nota-se durante aquele crepúsculo. Permitiu que meu encantamento inicial e fixação contrastasse com a distração e espontaneidade dela, ali, na calçada, aparentemente esperando alguém - que não eu, em meio às pessoas que passavam. Me permitiu que apreciasse seu olhar, seus movimentos. Em um deles sacou o celular e, como de costume, tirou fotos. "O amor é livre", era a inscrição no muro surrado, a qual ela se pôs, rapidamente, a fotografar. Quanto a isso, devo discordar. O amor não é livre. Ele se prende nas algemas da rejeição.  
   No início da noite de hoje o dono da dor me desprovou. A certeza de que a dor, da qual falavam Bukowski, Pessoa, de Azevedo, Neruda e outros, era puro cunho sentimentista e romântico, caíra por terra. A dor existe. Física. E pode parecer bobagem, mas, realmente, no coração. Claro que existem milhares de tipos de dores. Mas as do coração não se medem. Não se comparam. Se sofrem, no meio da noite de hoje.




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