terça-feira, 29 de julho de 2014

O dono da dor



  No início da noite de hoje, eu a vi. Estava perto e intocável. Não pelo vidro translúcido da janela do ônibus, mas pela covardia minha. Afinal, mesmo que eu pudesse sentir sua respiração, me faltaria voz, ato.
   No início da noite de hoje, no ônibus silenciado pelos fones, conheci o Acaso, o dono da dor. O Acaso é cruel. Inescrupuloso. Perverso. E outros adjetivos similares. Ele, o Acaso, tornou alguns segundos despretensiosos em momentos de martírio. Permitiu que eu a nota-se durante aquele crepúsculo. Permitiu que meu encantamento inicial e fixação contrastasse com a distração e espontaneidade dela, ali, na calçada, aparentemente esperando alguém - que não eu, em meio às pessoas que passavam. Me permitiu que apreciasse seu olhar, seus movimentos. Em um deles sacou o celular e, como de costume, tirou fotos. "O amor é livre", era a inscrição no muro surrado, a qual ela se pôs, rapidamente, a fotografar. Quanto a isso, devo discordar. O amor não é livre. Ele se prende nas algemas da rejeição.  
   No início da noite de hoje o dono da dor me desprovou. A certeza de que a dor, da qual falavam Bukowski, Pessoa, de Azevedo, Neruda e outros, era puro cunho sentimentista e romântico, caíra por terra. A dor existe. Física. E pode parecer bobagem, mas, realmente, no coração. Claro que existem milhares de tipos de dores. Mas as do coração não se medem. Não se comparam. Se sofrem, no meio da noite de hoje.




sábado, 19 de julho de 2014

Coisas que se passam na minha mente quando ninguém parece existir, além de mim


   Nos braços da Inquietude me encontrava em uma dessas madrugadas. Achando, eu, estar sozinho em meio às coisas que pensava esbarrei na Curiosidade, espaçosa que só. Se mostrando interessada, me segurou, queixando-se da Solidão:
- Espere .. - disse, e eu a atendi. Sentamos no banquinho da praça e ali eu já não podia notar as horas.
Ela, a Curiosidade, me indagava sobre muitas coisas. E sobre essas coisas eu tentava lhe dar respostas satisfatórias. Entretanto, ela não se contia, e eu bem que gostei. Era um exercício de imaginação responder à ingênua Curiosidade. Ela me questionou tantas coisas, mas, uma delas é o motivo de meu escrito:
- O que é o Impossível ? - ela perguntou. Não queria lhe entregar uma resposta simples ou qualquer coisa ilusória. Pois, eu mesmo queria saber o que era esse tal Impossível.
   Certamente, eu  não saberia, uma vez que nunca fiz mais do que estava ao meu alcance. Mas a Curiosidade, tão criança, me fazia querer descobrir. Foi quando pensei em alguém que poderia saciar-nos essa dúvida.
   Indaguei o Sr.Tempo sobre o que seria o Impossível. O Tempo, soberbo, me ignorou. Por um momento tive medo e só depois de anos alguém me trouxe a resposta. Eu, alguém que não conhecia muito bem, mas que trazia um ar familiar. Ele parecia falar com autoridade sobre muitos assuntos. E por mais que ocupado, o Eu me disse, em tom pesado:
- O Impossível só existe para aqueles que esperam que o Tempo lhe traga alguma coisa.
Foi o que eu disse para Curiosidade, que, enfim, me deixou descansar.