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quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Tão antiga

Quão certo estou a idade que tanto vi e quase nada aprendi?
Abrir um pensamento com um questionamento e não uma certeza
é preguiçoso como todos os anos que me passaram
por cima
E isso já responde muito
preguiça

Eu estou certo do que não aprendi, não aprendo
Não aprendi sobre o amor
Amizade, morte, família, esoterismo
Não aprendi a arrumar minha cama
lasanha, banho no cachorro
Eu não aprendi a beber, nem trabalhar
e trabalhando aprendi a beber, sem plenitude
desaprendendo a trabalhar
Eu nunca soube responder perguntas diretas:
quem é você? Vamos?
Eu jamais soube o pensamento, nem meu
O sofrimento do animal

Aprender é tão irreal que parece livro de autoajuda
que ajuda o autor, não o comprador
e portanto nem deveria existir, autor 
Anos a fio, branco
não explicam quem eu sou

Se sou, não poderia ser
Perceba: a expectativa, o brilho, a vontade
diminiu
Não tenho vontade de ser, nem de nenhuma outra expectativa
O que adianta querer viver se sobre a vida poder nenhum possuo?

Tudo me tem, nada seguro

Eu quis voar, me apedrejaram
Eu quis estar no chão, me aterraram
Amarrado

Quão limitado é ser jovem
Quanta jovialidade é ser limitado quando adulto

Foi bom
Tão bom que temo ter sido ilusão líquida

Quão velho sempre estive
e aqui a felicidade é uma ideia antiga

Tão antiga



segunda-feira, 9 de maio de 2016

Sobre o filme A Vila




O filme “A Vila” vai além de uma produção hollywoodiana de médio orçamento (111,6 milhões USD) dirigida por um candidato a grande diretor, M. Night Shyamalan, que em seu oitavo filme recorreu à característica que o levou rapidamente à notoriedade; reviravoltas e surpresas no enredo. Artifício perigoso e aparentemente preguiçoso não fosse a interessante abordagem da psique humana imposta em cada personagem. Com essa proposta, Shyamalan reacende, à época, a esperança de dias melhores e não somente filmes que se paguem com uma ou duas frases “como eu não percebi isso antes?” de quem os veja.

Temos vergonha do que nos faz humano, segundo Jung. Essa frase cabe perfeitamente por toda a história de Edward Walker (William Hurt) e os demais “anciões” fundadores da vila. Após inúmeros acontecimentos impactantes e tristes em suas vidas, decidem criar um mundo onde pudessem controlar tudo e todos, um mundo fantasia, outra realidade. A Vila surge do desejo de suprimir o princípio de realidade que nos fere, a violência. No entanto, todos lá ainda eram humanos.
Há uma lenda na Vila. Monstros horripilantes vagam pelo bosque dispostos a punir todos que avancem através dos limites da comunidade (recalque) e os limites civilizatórios dos mais inocentes. Quando os desejos humanos, amor e ódio, são instigados pela vivência florescem vermelhos como rosa, a ordem da Vila é rompida e “Aqueles de quem não falamos”, os monstros, cumprem sua função. 

Ivy Walker (Bryce Dallas Howard), Lucius Hunt (Joaquin Phoenix) e Noah Percy (Adrien Brody) são os protagonistas das pulsões inconscientes. O amor de uns é o ódio de outros, desencadeando um evento capaz de desconstruir toda a farsa da Vila.

O filme A Vila ensina, além da clichê frase do Sr. Walker “O amor move o mundo”, que as destrutividades externas não serão eliminadas com mentiras. Cada um precisa controlar sua destrutividade interna para um mundo mais dócil e benevolente. 




terça-feira, 1 de março de 2016

Amanhã e hoje


Amanhã eu tenho um amigo
para conhecer
Nele confio
confio, pois, devo para ser

Depois, à tarde
tenho um cachorro
para enterrar, arde
pouco

Eu tenho planos para cada
amanhã, mas, hoje
Hoje não tenho nada
Tudo me foge

Eu tenho uma mãe, um pai
amanhã, comigo
para lembrar do que vai
quando sozinho

Amanhã eu tenho uma linda garota
E nós, uma pequena vida
Proteger, estar, me logra
Numa casa no topo da descida

Amanhã, mas hoje não
Hoje nada possuo
Hoje, então
o vácuo é mútuo

Amanhã, sei que terei
quem olha por mim
Quem? Ei...
Sei que sim

O hoje me estranha
pelo arredio semblante
O amanhã me ganha
ainda que distante

Amanhã eu tenho
Hoje, falta
mesmo sendo
tudo da mesma alma

No hoje de posse
quem nada tem, veja
Nada é e perece
Se nada é, nada terá, até que seja