Quão certo estou a idade que tanto vi e quase nada aprendi?
Abrir um pensamento com um questionamento e não uma certeza
é preguiçoso como todos os anos que me passaram
por cima
E isso já responde muito
preguiça
Eu estou certo do que não aprendi, não aprendo
Não aprendi sobre o amor
Amizade, morte, família, esoterismo
Não aprendi a arrumar minha cama
lasanha, banho no cachorro
Eu não aprendi a beber, nem trabalhar
e trabalhando aprendi a beber, sem plenitude
desaprendendo a trabalhar
Eu nunca soube responder perguntas diretas:
quem é você? Vamos?
Eu jamais soube o pensamento, nem meu
O sofrimento do animal
Aprender é tão irreal que parece livro de autoajuda
que ajuda o autor, não o comprador
e portanto nem deveria existir, autor
Anos a fio, branco
não explicam quem eu sou
Se sou, não poderia ser
Perceba: a expectativa, o brilho, a vontade
diminiu
Não tenho vontade de ser, nem de nenhuma outra expectativa
O que adianta querer viver se sobre a vida poder nenhum possuo?
Tudo me tem, nada seguro
Eu quis voar, me apedrejaram
Eu quis estar no chão, me aterraram
Amarrado
Quão limitado é ser jovem
Quanta jovialidade é ser limitado quando adulto
Foi bom
Tão bom que temo ter sido ilusão líquida
Quão velho sempre estive
e aqui a felicidade é uma ideia antiga
Tão antiga
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quinta-feira, 29 de setembro de 2016
segunda-feira, 23 de novembro de 2015
Teatro de Nelson Rodrigues
Nos idos da década de 1940, Nelson
Rodrigues solidificava uma nova postura dramatúrgica brasileira, influenciando
gerações e redefinindo para sempre o teatro, o qual, hoje, inclusive, funde
artista e arte; o chamado Teatro Moderno de Nelson Rodrigues.
Ele, que também foi jornalista, causou
polêmica e estranhamento com as particularidades da peça Vestido de Noiva,
sendo considerado o marco inaugural do nosso teatro contemporâneo. O
espetáculo, que estreou nos palcos cariocas em 1943, sob a direção de Zbigniew
Ziembinski, chamou a atenção por se passar em três planos distintos que se
cruzam – memória, alucinação e realidade, criando uma viagem ao interior da
mente e da alma da personagem principal.
Sobre a peça especificamente, destacavam-se
elementos na narrativa os quais ajudam a entender as inovações impostas por
Rodrigues. Antes, o teatro moderno brasileiro teve destaque com as peças “O Rei
da Vela”; “O Homem e o Cavalo” e “A Morta”, de Oswald de Andrade. No entanto,
tratava-se de um teatro elitista, engajado e intelectualizante, envolvida,
muitas vezes, por improvisos de grandes astros mimados.
Com "Vestido de Noiva" Nelson - e
Ziembinski, impõe a arte pela arte em cima do tablado. Lida com conceitos metafísicos
tocando a espiritualidade do homem e as preocupações fundamentais da alma,
alcançando, inevitavelmente, sua maior questão; a morte. A peça revela o
pessimismo moral do autor expresso através da agonizante protagonista Alaíde
durante sua permanência no hospital, destacando uma sociedade baseada no
desejo, na disputa, na inveja e na traição, engrandecendo muito a obra. Nelson
Rodrigues apôs ao título de sua peça a indicação: tragédia em três atos.
Seu marcante espetáculo uniu as faces que
caracterizaram essa etapa da dramaturgia no Brasil, inovando não apenas na
temática, mas nos recursos cênicos, exigindo sensibilidade e destreza a
encenadores, diretores e iluminadores que davam vida a suas peças. Se, quando
nem país éramos, as encenações dos Autos propagavam dogmas cristãos e
doutrinavam os povos indígenas, depois de Rodrigues e sua perspicácia única, o
teatro desnuda aspectos proibidos da vida familiar e sexual dos brasileiros,
chocando plateias lotadas.
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