Desde pequeno, por minha vó, mãe ou tio, fui instruído a ser educado e solícito com todos. E assim foi, por muito tempo. Fugir dessa conduta naquela época me acarretava algumas broncas. É de se admirar uma criança bem educada e fácil retribuir esse comportamento. Hoje vejo que, na verdade, gera uma sensação de estranheza.
O tempo passa porque tem que passar, mas corre ou rasteja por nossas mentes, mesmo. O tempo deu uma rastejada e eu já não era uma criancinha ingênua. Dizer "Bom dia", ou qualquer outra saudação adequada ao horário, fazia parte ainda da minha essência, como fui literalmente, adestrado. Mas agora, já não havia exclamação ao fim da frase. Não trazia-me mais o mesmo sentimento ou seja lá o que se passava na minha mente. Neste momento já me questionava se estava deixando de ser quem eu sempre fui ou se era apenas um processo natural condicionado a todos.
O tempo deu um pique. O "Bom dia" agora já não precisava de resposta, nem mesmo se era bom dia mesmo, ou tarde. Tanto faz. Os problemas não só surgiram, cresceram. Esse tipo de coisa tira do sua vida do âmbito plural para o singular. Por essas e outras que o "dá licença" deu passagem a uma espremida para passar, ou mesmo um esbarrão.
Não sejamos uns trogloditas! Veja, o comportamento em questão é geral, mas não unânime. O tempo levou minha gentileza - ou parte, e não minha humanidade. Não podemos estar na mente de ninguém e, exatamente por isso, ninguém pode estar na nossa. E nessa época minha mente era um local em que nem mesmo eu gostaria de estar.
O tempo já aprendeu a correr, e correu. Já passamos do meio dia? Que seja, acontece que agora o "Bom dia", que já não pedia resposta, não queria mais saber de rostos! Sim, claro. Por um caminho tortuoso foram se perdendo muitas coisas, ganhando-se outras, iludindo-se desses mesmos ganhos e perdas e por fim encontrando um caminho realmente, e não trilhas ou atalhos de terra em meio a grama, que por vezes se espaçam e me fizeram perder o fio da meada. E que fique claro que todas essas faltas de gentileza de minha parte só podem ser chamadas de faltas porque eu as perdi naqueles caminhos que disse acima. Não são faltas de gentileza por parte da sociedade, ora pois, isso é ser um adulto da sociedade - pensava. Muito em breve desaprendi a dizer "Bom dia", o mesmo que perdeu a exclamação, seguido da perda da resposta e depois dos rostos.
As pessoas estão muito preocupadas com seus problemas para se importar com os outros. Afinal, os outros que se preocupem com os seus. É isso. Não há muito o que discutir. A gentileza é um detalhe e é isso que somos todos os dias, seres que não se importam além do seu e se parecem se importar, certamente é por interesses pessoais, ou mera formalidade.
Há quase cinco meses me mudei para o novo apartamento, menor, mas de melhor localização na cidade.
Descobri ontem que tenho uma vizinha com necessidades especiais, os demais nunca vi de verdade. Não sei o nome do porteiro e muito menos do carinha dos serviços gerais. Não por má vontade ou indiferença, mas por tempo. Sim, ele mesmo. Para todos nós chega um momento em que não temos tempo para mais nada além daquilo que nos interessa. Quando achamos que não temos tempo para mais nada, descobrimos que podemos ter ainda menos tempo. Nesse instante já deixei de formalidades como "Bom dia", nem mesmo me importo se acham isso falta de respeito, afinal, não seria mais despeito perguntar sem ter o menor interesse? Talvez.
Eu passei muito tempo sendo um cara que não dizia mais que o necessário, e passava a maior parte do tempo adiantando os interesses próprios e coisas do tipo. Em um momento percebi que me distanciei da família e amigos, um pouco ao menos, e que fechei a porta para novas pessoas na minha vida. Eu passei a ser algo muito diferente do que eu acreditava ser o que sou de verdade, e isso, como num estalo, me trouxe a impressão de que estava errado continuar com isso. É preciso avaliar as perdas e os ganhos não mediante ao que você acha ser um ganho ou uma perda, mas sim a partir daquilo que propomos a nossas mentes como o que é certo ou errado. Se você acha que é certo ganhar em cima da perda alheia, você está errado. E se acha correto perder como um sacrifício para um bem maior, muitas vezes está certo.
Depois de alguns treinos o "Bom dia" voltou ao meu vocabulário. Não espere que meu cotidiano mude tão facilmente também. Maus hábitos se instalam como de forma confortável e inesperada, mas para acabar com eles .. tsc! O que importa é que minha mente já atentou que, é ela quem faz o tempo correr ou caminhar. E que não existem mundos particulares e sim um, cheio de gente que crê em mundos particulares.
Vou praticar meu "Bom dia" apenas para não ser tão associável, por enquanto. Breve serei aquilo que meus parentes me ensinaram quando pequeno, e que é ainda minha essência. Vou deixar esses adultos admirados como há algum tempo atrás e tentar fazer essa sociedade ser um pouco mais intimista.