sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Heróis do brainstorming

Didaticamente, o brainstorming trata-se de uma atividade feita por duas ou mais pessoas onde as ideias são despejadas e exploradas sem modéstia ou timidez, findando em uma reunião dos melhores conceitos. A técnica foi desenvolvida pelo publicitário Alex Osborn. 


A esmagadora maioria dos heróis foi criada por duplas dinâmicas nos primórdios dos quadrinhos, muito presentes a partir de 1930. Superficialmente, tratava-se de um roteirista e um desenhista. Entretanto, entre eles há o brainstorming. A troca de ideias foi determinante para criações eternas que, se fossem feitas por uma única mente, dificilmente ocorreriam de forma tão bem sucedida. Artistas como Stan Lee e Jack Kirby, Bill Finger e Bob Kane, Jerry Siegel e Joe Shuster, dentre tantos outros, uniam suas imaginações em discussões de múltiplas ideias a fim de chegar a definição perfeita para cada novo herói.

Bill Finger e Bob Kane - Batman

Bob Kane
A dupla criou em 1939 o herói que possui o maior numero de fãs. O homem-morcego foi concebido assim mesmo, meio homem, meio morcego, por Bob Kane. Ao mostrar para seu amigo Bill Finger a concepção do personagem e um esboço os dois executaram o brainstorming. Kane criou o conceito, o nome e outros pequenos detalhes e Finger sugeriu que Batman tivesse uma capa ao invés de asas, além de um capuz e luvas. Finger também sugeriu remover as partes coloridas do uniforme concebido por Kane e manter apenas o preto e o cinza.

Uma breve curiosidade: Devido às práticas editoriais da DC na época, todas as histórias do Batman foram publicadas como sendo de autoria de Bob Kane (Kane apresentado o personagem sozinho, sendo o criador "oficial"), o que significava que Finger não recebia nenhum crédito por seu trabalho. Até a sua morte em 1974, ele não obteve o reconhecimento merecido, e tornou-se sinônimo ("fingered") na indústria de quadradinhos quando se quer dizer que o autor não recebeu nenhum crédito por sua história. Hoje, em todas as produções que envolvam o Batman, Finger é devidamente creditado.


Steve Ditko e Stan Lee - Homem-Aranha
Lee na adaptação cinematográfica do Homem-Aranha
O já consagrado Stan Lee idealizou um personagem que tivesse como símbolo algo que, de imediato, não representasse grandiosidade e força. Stan diz ter pensado em muitos insetos até chegar a aranha. Após a iniciação do projeto, tendo já muitas das características aracnídeas do personagem; andar pelas paredes, disparo de teia (através de dispositivos por ele mesmo criados "web-shotters") e capacidade cognitiva ao perigo, o "sentido-aranha", além de super força e agilidade, costumeiras a heróis. Ao mostrar seu projeto para Ditko, o Aranha cresceu bastante ganhando características psicológicas e sociais decisivas para ser o sucesso entre o público das histórias em quadrinho. Peter Parker tornou-se um adolescente órfão, educado e criado pela sua Tia May e o seu Tio Ben, que tinha que lidar com as lutas diárias normais da sua idade, em adição aquelas que tem como combatente do crime mascarado.


Jerry Siegel e Joe Shuster - Superman
Siegel e Shuster
Foram colegas desde a escola e nutriam o gosto por ficções cientificas. Na revista Science Fiction: The Advance Guard of Future Civilization, em 1932, lançaram a primeira versão do personagem, então concebido como um vilão cujos poderes psíquicos foram usados para manipular outras pessoas e dominar a humanidade.
"Super-man", vilão
Nos anos seguintes Superman passaria por uma série de reformulações nas mãos dos dois autores -agora um herói, que passariam a oferecê-lo a diversas empresas, sempre com resultados negativos , até que em 1938 a "National Periodical Publications" os convidou para contribuir com um novo personagem para a mais recente publicação Detective Comics. Eis, então, o Super. Logo em seu primeiro ano de publicação serial, 1938, Siegel e Shuster foram forçados a expandir o universo do herói para preencher a demanda que tinha-se por esse recém criado ícone. Eles criaram, então, toda a mitologia do herói que, por conseguinte, criou uma gama de novos personagens.

Mulher-Maravilha - Um brainstorming trivial
A criação da primeira super-heroína deve-se a uma pequena troca de ideias entre Dr. William Moulton Marston, dito criador, e sua esposa, Elizabeth Holloway Marston, contribuinte decisiva. William Moulton Marston, um psicólogo já famoso por inventar o polígrafo (precursor mecânico do laço mágico), teve a ideia para um tipo novo de super-herói, um que triunfaria não com punhos ou poderes, mas com amor. "Bom", disse Elizabeth. "Mas faça-lhe uma mulher." Ao fim, também, haviam punhos e poderes.


Quarteto Fantástico - Brainstorming incial em um campo de golfe
Em 1961, o editor-chefe da Timely Comics (a editora precursora da Marvel), Martin Goodman, estava a jogar uma partida de golfe com o editor rival Jack Liebowitz da DC Comics. Liebowitz contou a Goodman sobre o sucesso que a DC estava a ter recentemente com a Liga da Justiça, um nova série que apresentava uma equipe formada por vários personagens de sucesso da editora.
Baseado nesta conversa, Goodman decidiu que sua companhia deveria começar a publicar a sua própria série sobre uma super-equipe. Stan Lee, que estava prestes a deixar a indústria assim que seu contrato acabasse, associou-se ao desenhista Jack Kirby para produzir uma revista inovadora. Através de muito trabalho de brainstorming a dupla decidiu as prioridades do novo projeto; unir a ideia de família aos super-heróis, com problemas, falhas, desentendimentos e humanidade. Assim criaram o Quarteto Fantástico, um grupo por vezes disfuncional e emocional, sem máscaras ou identidades secretas, sendo a "primeira família" da Marvel. O título ditou o modelo de herói que tornou-se o standard para a editora ao longo dos anos, graças a colaboração criativa de brainstorming entre Lee e Kirby.


Senhor Fantástico, Mulher-Invisível, Tocha-Humana e Coisa, o Quarteto.



segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Teatro de Nelson Rodrigues

  Nos idos da década de 1940, Nelson Rodrigues solidificava uma nova postura dramatúrgica brasileira, influenciando gerações e redefinindo para sempre o teatro, o qual, hoje, inclusive, funde artista e arte; o chamado Teatro Moderno de Nelson Rodrigues.
  Ele, que também foi jornalista, causou polêmica e estranhamento com as particularidades da peça Vestido de Noiva, sendo considerado o marco inaugural do nosso teatro contemporâneo. O espetáculo, que estreou nos palcos cariocas em 1943, sob a direção de Zbigniew Ziembinski, chamou a atenção por se passar em três planos distintos que se cruzam – memória, alucinação e realidade, criando uma viagem ao interior da mente e da alma da personagem principal.
  Sobre a peça especificamente, destacavam-se elementos na narrativa os quais ajudam a entender as inovações impostas por Rodrigues. Antes, o teatro moderno brasileiro teve destaque com as peças “O Rei da Vela”; “O Homem e o Cavalo” e “A Morta”, de Oswald de Andrade. No entanto, tratava-se de um teatro elitista, engajado e intelectualizante, envolvida, muitas vezes, por improvisos de grandes astros mimados.
  Com "Vestido de Noiva" Nelson - e Ziembinski, impõe a arte pela arte em cima do tablado. Lida com conceitos metafísicos tocando a espiritualidade do homem e as preocupações fundamentais da alma, alcançando, inevitavelmente, sua maior questão; a morte. A peça revela o pessimismo moral do autor expresso através da agonizante protagonista Alaíde durante sua permanência no hospital, destacando uma sociedade baseada no desejo, na disputa, na inveja e na traição, engrandecendo muito a obra. Nelson Rodrigues apôs ao título de sua peça a indicação: tragédia em três atos.
  Seu marcante espetáculo uniu as faces que caracterizaram essa etapa da dramaturgia no Brasil, inovando não apenas na temática, mas nos recursos cênicos, exigindo sensibilidade e destreza a encenadores, diretores e iluminadores que davam vida a suas peças. Se, quando nem país éramos, as encenações dos Autos propagavam dogmas cristãos e doutrinavam os povos indígenas, depois de Rodrigues e sua perspicácia única, o teatro desnuda aspectos proibidos da vida familiar e sexual dos brasileiros, chocando plateias lotadas. 


quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Você conhece Francisco de Vitória?


Nos anos 1500 -vocês sabem, ocorreram as Grandes Navegações, quando os reinos europeus buscavam domínio de novos territórios, dizimando, para esse fim, milhares e milhares de outros humanos que já viviam em tais terras. Tupi-guarani, Ianomâmi, Incas, entre outros. 

Nessa mesma época ainda, tão distante dos anos 1980, data da declaração dos direitos humanos em definitivo, Francisco De Vitória, Universidade de Salamanca na Espanha, propunha o pensamento a favor daqueles que, apesar de humanos, tornavam-se animais de carga e trabalho, quando não morriam nas mãos brancas.
De Vitória acreditava que a origem da lei emanava da própria natureza, dado que todos dela surgem e compartilham a vida. Portanto, a ideia de direito natural surgia enfatizando a liberdade individual e a igualdade, pois, no começo, tudo é comum a todos.

Como todo visionário, Francisco de Vitória não teve facilidade despejando seus simplórios pensamentos. A época confrontou a visão dominante da Igreja Católica e das potências coloniais europeias. A moral cristã tornava legítimo conquistar e governar os nativos. De Vitória irritou também monarcas, em especial o Rei Carlos V, da Espanha, ao ameaçar seu direito divino de comandar. O estudioso definiu que a guerra de dominação justificada no poder catequizador era contraditória. Usando as próprias leis cristãs ele disse que era do homem o livre-arbítrio, portanto, se escolhesse não ser inserido nos costumes de outra civilização, que não fossem forçados.

De Vitória separou as questões da justiça e da moralidade da religião, em 1500, e lançou alicerces para estudos futuros do direito internacional e dos direitos humanos. A doutrina em que estados beligerantes têm responsabilidades e que os não combatentes têm direitos -preservados nas convenções de Haia e Genebra- originou-se em seus pensamentos.


A pergunta que fica é; cadê os direitos humanos dos índios?

domingo, 15 de novembro de 2015

domingo, 30 de agosto de 2015

A Alemãzinha

   Peçanha, um amigo de idas e vindas, me convidou para passar o final de semana em sua pousada, em Arraial do Cabo. Era baixa temporada e inverno. Ele prometeu que o local seria todo nosso. Eu logo arrumei a bagagem e em poucas horas de uma viagem sonolenta estava na cidadezinha. Desci uma ruazinha pouco iluminada de paralelepípedos desnivelados onde ninguém mais andava. Cheguei à pousada “Vermelha” acompanhada pelo frio e uma sensação estranha causada pela ausência de pessoas pelo caminho, ainda mais para uma mulher de trinta e dois anos medindo um metro e sessenta de altura.
   Andei pela varanda de frente para a praia buscando através das portas de vidro alguma alma viva. Mas não. E a dita sensação estranha cresceu ao sentir-me completamente abandonada. Resolvi entrar. O silêncio era absoluto. Ouvia, apenas, as ondas agredindo a areia branca lá fora num ritmo despreocupado e constante.
   Estava na sala principal, onde as pessoas tomavam seu café da manhã, e ali esperei por poucos minutos, até ser incomodada pela lembrança do que Peçanha havia me dito; que eu fosse até o quarto 207. Direcionei-me a escada. Os degraus curtos e um estranho nervosismo me fizeram trançar o passo, cair e quase bater a cabeça no chão. As coisas não estavam à meu favor naquele dia. Acordei aos vômitos por algum chilique estomacal, com pressa tinha arrebentado o zíper da minha mala e o taxista que me trouxera era um tipo beberrão mal-educado. Esperava que aquele final de semana valesse, e não queria passar por ele com um galo na testa.

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quarta-feira, 27 de maio de 2015

Breve pronunciamento

   A busca pelo conhecimento é imprescindível para todo ser humano, logo, para a humanidade. Aliás, o saber humaniza, traz consciência de si e dos demais. Ensina os direitos, deveres e saber se colocar perante o mundo. Ensina também que nenhum homem tem, entretanto, lugar definido à se colocar. O saber liberta.
   E não há de se contentar com a libertação do indivíduo. Não à acomodação! Tão errado quando o agressor é aquele que silencia. Aquele que vê e não pronuncia é tão culpado quanto o que oprime e destrói. É preciso falar, clamar e reclamar. Não se pode acostumar-se com o errado, por menor que seja. Um "bom dia" mal dado ainda é um "bom dia" e, esperançoso, merece ser respondido à altura. Quem sabe, no dia seguinte, tal "bom dia" seja mais simpático. E isso é vida.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Um pouco sobre Galileu, Darwin e Freud

 Galileu, Darwin e Freud foram pensadores que, em seu tempo e em sua área, contribuíram enormemente para o andamento da sociedade, desenvolvendo ideias já existentes, aprimorando-as, ou firmando seus próprios conceitos. Os três revolucionaram o modo de pensar e influenciaram o mundo até os dias atuais.
   Galileu Galilei (1564-1642) viveu em uma época que a ciência ainda estava sob a influência do misticismo e da dogmática Igreja Católica. Seu primeiro mérito, então, foi saber separar definitivamente os seus estudos destas interferências e, mais tarde, desafiar a poderosa religião cristã, afirmando que a Terra não é o centro do universo. Ele, portanto, teve seu maior êxito por redefinir o mundo por completo. Ainda assim, Galileu definiu muitos estudos fundamentais para os anos seguintes da astronomia e a ciência de modo geral.
   Charles Darwin foi outro cientista que bateu de frente com a teoria cristã, porém, numa época de mais aceitação, 1800. Não fosse a assombrosa constatação de Darwin, talvez tivesse tido menos problemas com a Igreja Católica, pela qual foi acusado de satanismo, ao demonstrar a Teoria Evolucionista, baseado na observação, que mais tarde viria a ser completada no que é chamado de Neo-Darwinismo. Ou seja, muitos dos estudos iniciados por estes e outros neste texto citados, se complementaram nas décadas posteriores.
   Se os dois pensadores acima agiram de forma a mudar a sociedade, para então mudar o homem, Sigmund Freud (1856-1939) agiu de maneira reversa, mas não menos eficaz; mudou o homem para atingir a sociedade. Seu trabalho consistiu em dissecar a mente humana e, por vezes grotesco, tentar entender o subconsciente e aquilo que o homem não comanda em seu universo.

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sexta-feira, 24 de abril de 2015

Genialidade humana



Perguntaram a um pintor qual a mais verdadeira expressão humana de genialidade
Ele disse: Compor uma bela canção!
Perguntaram, também, a um músico qual a mais verdadeira genialidade
E ele disse: Executar uma apunhado de cálculos!
Perguntaram, então, a um matemático qual a verdadeira genialidade
Ele respondeu: Escrever uma história que cative!
Perguntaram a um escritor qual a verdadeira genialidade do homem
Ele disse: Construir um grande monumento!
Então, perguntaram a um arquiteto, qual seria a verdadeira genialidade
E ele falou: Ser capaz de entender o funcionamento do universo natural!
Perguntaram a um cientista qual seria a verdadeira genialidade
Ele disse: Escupir formas perfeitas!
Perguntaram para um escultor qual a verdadeira genialidade
E ele falou: Ser capaz de inventar ferramentas!
Perguntaram a um inventor qual é a verdadeira expressão de genialidade
Ele respondeu: Pintar um quadro!
Questionaram, por fim, a Leonardo di Ser Piero da Vinci qual a maior expressão humana de genialidade
E ele disse: Amar.

Para muitos a genialidade do ser humano pode ser expressa das mais diversas formas, visto que somos seres criativos e curiosos, de diferentes maneiras. Entretanto, nada disso se vale na ausência da mais genial expressão do homem; saber amar, e fazer, qualquer que seja sua função, de maneira apaixonada.



*NOTA : usa-se o nome de da Vinci pois, historicamente, ele foi o maior gênio da face da terra, atuando em todas as ciências.

terça-feira, 31 de março de 2015

A jornada



Naquela manhã sem sol, só neblina
fui eu acordado por um sinal de vida
um choro, berrado, estridente me fez abrir as vistas
e silenciou-se, no ato, como se fechasse a ferida

Eu levantei daquele buraco, de terra
Me ergui ainda molhado num cenário de guerra
talvez seria esse o motivo daquele que a pouco berra
talvez se tornasse meu motivo de lamento, mas não era

Eu corri, e em alguns passos já não vira aquilo
eu estava envolto de belas fadas e esquilos
sinfoniados por uma orquestra de grilos
além de outros bichos de muitos filos

Logo, seu Coruja, me deu o que comer
Me deu um leito e leite morno pra adormecer
Mas eu não queria dormir, queria viver
antes de sair dei minhas palavras para agradecer

Lá estava eu, com montanhas à leste
correndo por vales, planices, estepes 
matas, cavernas, e outros tipos destes
até caminhar pelos campos do oeste

Lá, lugar cheio de cheiro
sabor e tempero
o tempo inteiro
eu cai de face num xiqueiro

Ah, seu porco!
Perdoe-e, sou louco!
como posso me redimir e nada ou pouco
tenho de fato.. E ele disse, rouco

"Se está se desculpando por pisar no meu lar
com perdão do trocadilho que vou falar;
espero mesmo que seja desequilibrado, mas vá
não há porque não sorrir para visitas no jantar"  

E eu que tinha fome, fui servido
E narrei o que até ali tinha vivido
omiti isso e aquilo
e só falei mesmo das fadas e dos esquilos

Na saída, na estrada, em alguns passos
antes que os porcos se tornassem escassos
enquanto me perguntava o que de fato
eu fiz, faria, e faço

Fui jogado de novo, de cara pro chão
tropecei numa linda pedra redonda que brilhava a paixão
Olhei, olhei e olhei, ninguém disse não
e carreguei a pedra na mão

Com ela eu fui, segui, vivendo
junto a ela fui crescendo
juntos fomos envelhecendo
mas eu não descia meu grande apreço

Pela pedra, que igual não tinha 
Tão encantadora e um homem que comprava  vendia
logo tacou os olhos pra cima
e eu, sem saber o que fazer, escondia

O homem de chapéu curto
era grande e tornou tudo mais escuro
Me ofereceu muitas coisas, absurdo!
eu disse não e me apressei temendo o furto

Ele insistiu, e pôs suas pernas peludas
envergadas e cascudas
Pra me perseguir até que me alcançou com a cara carrancuda
e, tirando o chapéu, deu ar pro par de chifres corcunda

"Qualquer coisa que tenhas visto e não teve
Qualquer coisa que tenhas tido e perdestes
Qualquer coisa que tenha vivido e morreste
Qualquer preço que tenhas em mente"

E eu, somente, neguei
E o motivo da insistência indaguei
e ele remoído por dentro, pensei
somente deu as costas, e eu deixei

Eu aproveitava cada vento
cada terra, cada fruta, em silêncio
cada paisagem, cada conversa de sentimento
de cada coisa desfrutei por um momento

Certa vez, numa sombra de árvore
Avistei linda e grande ave
esperei contente que cantasse
mas aquela não era uma boa fase

Eu chamei a mulher, que desceu dos galhos
Eu perguntei a ela porque tanto silêncio e um canto falho
Será que para contornar a tristeza não havia atalho?
E ela me disse debaixo daquele orvalho

"Meu canto está torto, não adianta
perdi uma engrenagem da garganta.
A tristeza é tanta!
Sou uma linda ave grande que não canta"

Linda, e mais ainda de perto, diante
daquele desabafo apaixonante
eu não medi forças para ajudar, confiante
mas nenhuma de minhas teorias fez com que ela cante

Ela abriu o bico, e eu vi sua dor
lá, no canto direito superior
faltava uma peça em seu interior
e eu trouxe a solução com amor

Lasquei uma parte, e só uma parte
de minha pedra, e com arte
tracei a forma perfeita pr'aquela ave
que enfim, pôde de novo, cantar nos ares

Eu andei, novamente, por todos os cantos do mapa
e com todos os amores e sorria, e cada
tinha um toque diferente, e do nada
eu senti que faltavam degraus na minha escada

Espaço este que parecia
se preencher quando, agradecida
de manhã, ainda um pouco adormecida
a mulher ave cantava pra mim, lá de cima

Numa dessas conversas eu coloquei uma flor em seu cabelo
Com pressa ela ergueu o mais alto voo, e não voltou cedo
eu vi o amor subir, sumir e hoje percebo
que fui tolo, bobo e o que mais mereço

Meus pés já estavam cansados
e nem todos os lugares mais apreciados
me faziam ter ânimo, pois o mundo era eu, desolado
E qualquer estrada era caminho, qualquer lado

Isto é, por mais que cansado, ainda vivia
E por tudo que eu vira
não contar tudo para outros, não valia
Mas a noite caiu de vez, e fria

Para minha sorte, vi uma cabana
Lá no meio do nada, me chama
Lá tinha lenha, que inflama
e trazia prazer deitado na cama

A dona era uma cega que comprava a preço de ouro
qualquer coisa que brilhasse mais que um pouco
"Isso aí em sua mão direita?" - disse a velha de cabelos louros
E vendi minha pedra, pra evitar mau agouro 

Eu não queria! Era tudo que eu tinha
Eu não queria, mas era tudo que eu tinha
e agora meus pés estavam sem sapatilhas
e mais cansados que uma cabrita!

Eu andei até um riacho
e sentei na beira, junto ao fracasso
com o tempo as águas, eu acho 
pareciam seguir mais devagar com seus passos

Tudo que eu sabia era andar
e isso só me ensinou a me cansar
Cada estrada me fez sorrir e chorar
Feliz no momento e triste por acabar

E eu queria que fosse mentira
aquilo que eu tinha, a vida
Para que eu pudesse refazer de forma mais divertida
se bem que eu não poderia pensar de forma mais inventiva

Eu aceitei que era verdade
E tudo que eu tinha era o cansaço da idade
e tudo que eu tinha naquele momento de saudade
era o rio, levando folhas, que quisessem profundidade

E levando tudo mais além de folha
que tivesse como escolha 
se jogar nele e se perder em bolha
No fim o rio era uma grande tulha

Guardando tudo que não tivesse um lar
afogando tudo que não soubesse amar
livrando tudo que parou de sonhar
e aos poucos suas águas iam parando, parando, até congelar



quarta-feira, 25 de março de 2015

Cada um com seu Mito

   Valentes lusitanos predestinados a desbravar o além mar, confrontaram, há mais de 500 anos, a impetuosa e poderosa Igreja Católica, que comandava a sociedade com seus dogmas e ensinamentos, através de um véu de fé e santidade. O mito de que a terra era plana e que ao fim do horizonte nada mais havia que um precipício universal onde desaguavam os oceanos, empregado por esta instituição de gigante influência, foi quebrado graças a coragem de alguns homens e de uma nação que se abria para o conhecimento maior.
   Na época, tantos mitos já se quebraram que parecia impossível sustentar semelhantes na Era Moderna. O tal mito da terra plana sumiu junto às naus portuguesas no horizonte do mar Atlântico e, com eles retornaram, além de boas novas e nova terra, outros mitos como serpentes marinhas gigantes, lulas engolidoras de navios, além dos recém criados na América e que se criariam dali para frente, provando que o homem está sempre a criar mitos e, quase sempre, a desvendá-los.

Acompanhem o vídeo : As Grandes Navegações, Mitos e Descobertas

O Mito da Caverna no século 21

   O "Mito da Caverna", aquele em que Platão narra, basicamente, sobre os homens em uma caverna observando as sombras (geradas por uma fogueira; "conhecimento") de seres de fora, deixando-os acuados e permanecendo, então, na caverna (escuridão da mente, ignorância), é bastante conhecido na filosofia e está presente em todo momento da vida de qualquer ser humano, isto é, comodidade e vício são comportamentos ocorrentes nos indivíduos, os quais devem-se negar e usarem-se de meios para não dar brecha para estes e semelhantes, como a preguiça, findando com o ser em estado de mentalidade estática.

   
O homem é curioso por natureza, entretanto, é igualmente natural a desistência frente a dificuldade ou quando se parece estar satisfeito com a situação, mesmo quando esta apresenta problemas que sejam pequenos. A internet surge como um grande vício do novo século. A facilidade de acesso e a enxurrada de entretenimento barato e atividades que servem unicamente para preencher o tempo vazio torna-se, muitas vezes, um percalço frente a outras atividades inerentes ao ser humano, substituindo a integração "olho no olho" por "emoticons, likes e follows".

- A internet caiu, vou ver como está lá fora.. (!)
   O grande problema está no ser humano, de fato. Aquele que se deixa levar pelos sutis trilhos da distração e do vício, e aqueles que se propõem a expor este conteúdo. Portanto, cabe unicamente ao indivíduo se comandar, e não seguir como trens pré-definidos de estação em estação. Contextualizando, a internet não é nenhuma vilã, é uma ferramenta. O homem pode usar um martelo para construir ou consertar uma bela cadeira, e este mesmo humano pode usá-lo para ferir outrem ou a si mesmo.

NOTA : A Caverna de Platão possui muitas interpretações e neste texto foi dito apenas o necessário para o objetivo claro. O Mito é muito mais complexo e recomenda-se que haja aprofundamento no assunto.


sábado, 31 de janeiro de 2015

O dia em que minha mãe quase descobriu meu relacionamento com a maconha

Escrito por Róbso que se escreve Wando.

Lembro-me como se fosse ontem, era 30 de janeiro de 2015, tinha uma puta festa para ir e sabia que ia rolar altas putarias all night long. Após pedir o financiamento do meu pai, era a vez a contribuição da mulher que me deu a luz - agradeçam a ela.
Como de costume, ela me fez o interrogatório. Onde? Quem? Quando? Até que horas? O quê? Pra quê? Quanto? - São apenas alguns exemplos. Com larga experiência em embromação racionalista com especialização em lorotagem, consegui a quantia necessária para bancar a zona que aconteceria naquele dia e ainda me sobraram uns trocados, claro.
Estava na hora, a libertinagem começaria dentro de 1 hora.
Passei na casa do meu amigo, Edu, e de lá seguimos ao misterioso lugar.
Era tudo que eu esperava, à primeira vista. À segunda também, e na terceira, já estava muito escuro.
Bem, para encurtar essa bagaça, pularei o conteúdo da festa (talvez sirva para outro post, até lá, usem a imaginação).
Eis a etapa final daquela noite.
Quase 3 da matina, chego a porta de casa, após ter apresentado certas dificuldades para apertar o botão 6 do elevador, o que me fez dar um passeio pelos andares do meu prédio e conhecer lugares mais ocultos que a entrada para Hogwarts.
Quando consegui apertar a campainha e, obviamente, terminar a não mais Sinfonia Inacabada de Beethoven, minha mãe abriu a porta e disse algo assim :
- Entra logo, o que você tem na cabeça?
- Ah maaain, isso é pergunta que se faça essa hora da manhã?
- Senta ai, eu não vou nem perguntar porque você chegou essa hora, se o combinado era meia noite no máximo!
- Que bom, vou durmir ..
- Espera ai, porque seus olhos estão assim .. vermelhos ??
- (Ihh..) Bem mãe, senta aqui também e presta atenção:
Sabe o Eduardo .. ?
- O de rastafári?
- Que safári mãe!?.. o filho da Carla .. então, a gente tava curtindo a festa, super família lá mãe, cê precisava ver .. ai o pessoal tava jogando baralho, sinuca .. comendo uns sanduíches sabe? .. A gente tava se divertindo, contando piadas, muita emoção rolando, principalmente quando trouxeram o leite com Toddy para cantarmos Legião e Los Hermanos .. bem da hora assim .. foi um momento único, e eu estava com meus melhores amigos ..
- Tá, mas o que tem o Eduardo ?
- .. Ele é meu melhor amigo, poha .. mas, então, chegou o fim da festa, e o Eduardo tava com o carro do pai dele, e deu carona pro pessoal. A gente começou a cantar Eduardo e Mônica, sabe mãe? Aquela .. queeem irá dizer a razão do coração .. e na parte que a Mônica falava coisas sobre o Planalto Central, o carro acertou uma vaca que passou na nossa frente bem ali perto do Largo do Machado, se precisava ver mãe .. tadinha da vaca.
Bem, no acidente a maioria saiu só com uns arranhões mas, mas o Eduardo não .. e gente chamou a ambulância e ele foi internado.
O meu melhor amigo mãe .. ( e ela me olhava sem saber se me batia ou se ria, ou os dois)
Enfim, o médico veio e nos disse que era melhor irmos para casa e que o estado de Edu era grave, muito grave, mas estável.
Eu não consegui deixá-lo sozinho, fiquei lá, chorando, chorando, chorando e chorando, até não me restarem lágrimas.
Era 3 e pouca quando o médico falou para eu ir para casa que meus olhos estavam mais vermelhos que o cabelo do Iori Yagami, do KoF.
- Hm .. inventou isso agora?
- Poh mãe, algo tão sério acontece e vc ai zombando .. vou durmir até, boa noite.
- Humff .. - e eu já deitando, ela grita : E esse cheiro? Que cheiro é esse ? Esse cheiro é de maconha! Não é?
- É mãe, mas .. tinha um pessoal fumando lá ..
- No hospital?
- É. (huehueh) Medicina alternativa mãe, tchau.

E foi assim que ela quase descobriu meu segredo, mais uma vez usando minha lorotagem altamente funcional.

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No dia seguinte, de manhã, minha mãe veio me acordar falando que o Eduardo tava lá fora me esperando para irmos jogar bola. E eu exclamei : É UM MILAGRE, VIVA!


quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Com amor, George

  George, um rapaz charmoso que sempre sentava na mesa da frente a de Elisa, no Coffee Day onde eles começavam o dia, vivia a lançar seu olhar tímido e penetrante sobre a desconcertada moça.
  Nas noites de Elisa, George se tornava pensamento cada vez mais frequente e ela achava errado por ser casada há mais de uma década - apesar deste relacionamento não estar em boa fase.
  Os dias se passavam e George invadia seu dia a dia, e por vezes ela o comparava a seu ausente marido Léo. Comparava os cabelos, os olhos, o modo como segurava o jornal e bebia o cappuccino acomodado de pernas cruzadas, ou como desviava o olhar quando era encarado.
  Na última quinta-feira no Coffee Day, Elisa recebeu do garçom um bilhetinho em um guardanapo. Frases românticas que descreviam Elisa com detalhismo e paixão e timidamente pediam uma conversa. Ela sabia que eram de George, não por serem finalizados por "com amor, George", mas sim, quem mais poderia descrevê-la daquela forma se não alguém que a observasse atentamente todos os dias? Somente George.
  Após alguns dias de conversas por guardanapos o garçom trouxe o último bilhete. Este a convidava para uma viagem! Com todas aquelas conversas inteligentes e românticas, no calor do momento, ela aceitou. Tendo em vista ainda o total desastre que se encaminhava seu desgastado relacionamento com Leonardo.
  No dia seguinte, bem cedo, após um dia inteiro - e noite, pensando em tudo que estava acontecendo, ela fez as malas secretamente enquanto seu marido dormia, e partiu ao local marcado. Esperançosa para ouvir, enfim, a voz do charmoso George lá estava ela, como uma adolescente que fugia de casa. E ao chegar ao local descrito no papel, para sua enorme surpresa quem a aguardava era George, o faxineiro do Coffee Day, barrigudo e nada charmoso de olhar cansado que tinha uma paixão secreta por Elisa além de boas palavras.