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domingo, 7 de maio de 2017

Crítica Retroativa: Fragmentado reúne o melhor de Shyamalan


     O filme ostenta o nome de seu diretor como uma bandeira atrativa nos posters e banners. Parte da expectativa gira em torno da identidade de M. Night Shyamalan, conquistada nos primeiros anos de Hollywood, com O Sexto Sentido e carimbada com os outros sucessos conseguintes. Fragmentado aplaca o melhor estilo shyamalânico e todo o resto acompanha em alto nível.
     O thriller começa com o pé na porta em uma eletrizante cena de sequestro. A adrenalina é enclausurada e vai se liberando devagar aos olhos do público conforme conhece as várias e distintas personalidades do esquizofrênico Kevin, interpretado por James McAvoy. Anya Taylor-Joy dá vida a Casey, que coprotagoniza em cárcere com uma atuação de igual calibre e precisão.
     Em Fragmentado, Shyamalan retoma a perfeita dosagem entre o científico e o fantástico, o real e o sobrenatural – característica do diretor, porém que havia sido desmedida depois de Fim dos Tempos. Com um cast de atuações sem extravagâncias aliado a um roteiro que não permite desviar os olhos da tela, o público é levado para dentro daquele universo e, desta forma, as múltiplas personalidades de Kevin são tão reais quanto assustadoras. 
     Por falar em cast, James McAvoy tem uma de suas melhores atuações alternando desafiadoras 23 personalidades. É bem verdade que, para a história progredir adequadamente em 2 horas, existe a priorização de cinco ou seis facetas – o pouco tempo de tela para as demais é perfeitamente justificado dentro da narrativa. 
     Ainda assim, McAvoy surpreende com sua interpretação sutil sempre que necessária. Ao mesmo tempo que a diferença entre as personalidades se dá de forma branda, com pequenas modificações na boca ou semblante, quem assiste percebe nitidamente a mudança de tom do personagem e da atmosfera que o cerca. Neste sentido, os close-ups com grande-angular que Shyamalan tanto gosta casam perfeitamente com a atuação precisa de James McAvoy.
     Anya Taylor-Joy é mais uma grata surpresa que Fragmentado agrega. A atriz que deu as caras em A Bruxa (2015) parece estar conquistando seu espaço com atuações seguras que podem explodir sem que isso cause estranheza. No filme, parte do passado de sua personagem é contado em paralelo à medida que ela conhece seu sequestrador, justificando a inteligência da personagem e seu modo analítico de lidar com cada personalidade para fugir do cativeiro.
     Fragmentado é isso: reúne o melhor do roteiro e direção de M. Night Shaymalan e é levado por grandes atuações sem exageros espalhafatosos. Dizer mais sobre o longa estragaria a experiência de conhecer a bestial vigésima quarta personalidade de Kevin e o que ela promete.



segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Teatro de Nelson Rodrigues

  Nos idos da década de 1940, Nelson Rodrigues solidificava uma nova postura dramatúrgica brasileira, influenciando gerações e redefinindo para sempre o teatro, o qual, hoje, inclusive, funde artista e arte; o chamado Teatro Moderno de Nelson Rodrigues.
  Ele, que também foi jornalista, causou polêmica e estranhamento com as particularidades da peça Vestido de Noiva, sendo considerado o marco inaugural do nosso teatro contemporâneo. O espetáculo, que estreou nos palcos cariocas em 1943, sob a direção de Zbigniew Ziembinski, chamou a atenção por se passar em três planos distintos que se cruzam – memória, alucinação e realidade, criando uma viagem ao interior da mente e da alma da personagem principal.
  Sobre a peça especificamente, destacavam-se elementos na narrativa os quais ajudam a entender as inovações impostas por Rodrigues. Antes, o teatro moderno brasileiro teve destaque com as peças “O Rei da Vela”; “O Homem e o Cavalo” e “A Morta”, de Oswald de Andrade. No entanto, tratava-se de um teatro elitista, engajado e intelectualizante, envolvida, muitas vezes, por improvisos de grandes astros mimados.
  Com "Vestido de Noiva" Nelson - e Ziembinski, impõe a arte pela arte em cima do tablado. Lida com conceitos metafísicos tocando a espiritualidade do homem e as preocupações fundamentais da alma, alcançando, inevitavelmente, sua maior questão; a morte. A peça revela o pessimismo moral do autor expresso através da agonizante protagonista Alaíde durante sua permanência no hospital, destacando uma sociedade baseada no desejo, na disputa, na inveja e na traição, engrandecendo muito a obra. Nelson Rodrigues apôs ao título de sua peça a indicação: tragédia em três atos.
  Seu marcante espetáculo uniu as faces que caracterizaram essa etapa da dramaturgia no Brasil, inovando não apenas na temática, mas nos recursos cênicos, exigindo sensibilidade e destreza a encenadores, diretores e iluminadores que davam vida a suas peças. Se, quando nem país éramos, as encenações dos Autos propagavam dogmas cristãos e doutrinavam os povos indígenas, depois de Rodrigues e sua perspicácia única, o teatro desnuda aspectos proibidos da vida familiar e sexual dos brasileiros, chocando plateias lotadas.