sábado, 1 de abril de 2017

Édipo em Incêndios


O filme Incêndios (Denis Villeneuve, 2010) é uma obra de reconhecida qualidade que, em uma observação equidistante aos enlatados blockbusters, inova com antigas tramas narrativas.


É possível pinçar inspirações diretas ou indiretas às histórias que moldaram o pensamento ocidental. O roteiro é permeado de referências à personagens bíblicos, como "Cain e Abel" "Moisés" e "Jesus", e à mitos romanos e gregos, tais como "Rômulo e Remo" e "Édipo Rei". E é com este último que o filme tem seu flerte mais forte.


A peça de Sófocles vai fundo no caráter imutável - e doloroso, do destino. Em uma sucessão de tentativas de se desgarrar das tórridas profecias, Laio e seu filho, Édipo, acabam por se encontrar e fazer valer todas as palavras do Oráculo. Jocasta, viúva de Laio e esposa do próprio filho, acaba sendo mais uma vítima dessa tragédia.


O dramaturgo grego é despejado em Incêncios sem superdosagem. É exato. As semelhanças óbvias transpassam o momento de abandono do filho por Nawal (Lubda Azabal), acreditando ser o ideal a se fazer, passando pela busca por um novo e melhor lugar para se viver - a saída de Édipo de sua cidade natal. Entretanto, um novo lugar implica diretamente em mudanças de percepções. Com isso, Nawal enfrenta sua Esfinge de cara limpa, um gatilho importante que muda o universo da personagem principal - nas duas histórias. De uma forma muito mais chocante, surpreendente e perturbadora, mãe e filho se reencontram.


O enfoque, então, é que ninguém é capaz de seguir seu próprio caminho. Estamos todos - e aparentemente os heróis mais ainda, presos a uma via crucis impiedosa do destino. Ai daquele que tente burlá-lo.

domingo, 6 de novembro de 2016

Outra vez segunda-feira



   Outra vez segunda-feira, o relógio despertou, eu não. Em cima da hora me vi na rua arrumado e estressado junto de todas aquelas pessoas apressadas.
   Outra vez segunda-feira e o ônibus custa a cruzar a esquina em minha direção. Não me consola o fato de não ser somente eu. O estresse das manhãs de segunda afeta todos, aparente nas pernas agitadas e olhares impacientes numa dessas bucólicas ruas da Lapa ou Catete, já não faz diferença. A irritação do início da semana é sempre a mesma, alheia ao endereço.
   A chuva que se anunciava nas pesadas nuvens acima de mim gota à gota transbordava meu mau-humor. Fez também uma revoada de pombos fugir da praça e buscar abrigo na marquise ao meu lado. Neste momento vi meu ônibus surgir na esquina. Minha segunda parecia melhorar, afinal. Não! Mais uma vez engano, como geralmente acontece. Um dos malditos pombos me trouxe de volta para aquela segunda-feira. Camuflado dentre muitos pingos de chuva, o desgraçado cagou no meu terno.
   Outra vez segunda-feira e eu me atrasei, não peguei o ônibus, não fui ao trabalho.


quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Tão antiga

Quão certo estou a idade que tanto vi e quase nada aprendi?
Abrir um pensamento com um questionamento e não uma certeza
é preguiçoso como todos os anos que me passaram
por cima
E isso já responde muito
preguiça

Eu estou certo do que não aprendi, não aprendo
Não aprendi sobre o amor
Amizade, morte, família, esoterismo
Não aprendi a arrumar minha cama
lasanha, banho no cachorro
Eu não aprendi a beber, nem trabalhar
e trabalhando aprendi a beber, sem plenitude
desaprendendo a trabalhar
Eu nunca soube responder perguntas diretas:
quem é você? Vamos?
Eu jamais soube o pensamento, nem meu
O sofrimento do animal

Aprender é tão irreal que parece livro de autoajuda
que ajuda o autor, não o comprador
e portanto nem deveria existir, autor 
Anos a fio, branco
não explicam quem eu sou

Se sou, não poderia ser
Perceba: a expectativa, o brilho, a vontade
diminiu
Não tenho vontade de ser, nem de nenhuma outra expectativa
O que adianta querer viver se sobre a vida poder nenhum possuo?

Tudo me tem, nada seguro

Eu quis voar, me apedrejaram
Eu quis estar no chão, me aterraram
Amarrado

Quão limitado é ser jovem
Quanta jovialidade é ser limitado quando adulto

Foi bom
Tão bom que temo ter sido ilusão líquida

Quão velho sempre estive
e aqui a felicidade é uma ideia antiga

Tão antiga



sábado, 28 de maio de 2016

Memes




O estudo da Memética, nomeado assim por Richard Dawkins, busca entender os processos de transmissão e disseminação de ideias, valores e conceitos. Em suma, informação; chamados por ele, em uma analogia precária coma a palavra gene, de meme. O termo deriva do grego mimese (imitação), sustentando que o conhecimento é obtido por observação e repetição – note uma criança, oras. Sendo ele, o meme, a menor parte da informação (se o gene é a unidade da genética), diz Dawkins que uma ideia surge, e simplesmente surge, no cérebro humano, transpassa esse limite chegando a outros cérebros, onde se desenvolvem, evoluem “biologicamente”, e sendo, ainda, armazenadas em unidades físicas como livros, computadores, cadeiras. Sim, pois, uma cadeira é nada mais que o acúmulo de ideias definidas para uma função. O objeto não é um meme, porém, sim o que ela transmite, a informação nela contida. O meme é a dança e não o dançarino. Entretanto, o meme surgiria mesmo do nada?
Como o gene adquiriu sua complexidade em meio a um Caldo Primordial durante tempos, o meme desenvolve-se na Cultura humana. Essa Sopa de ideias e conceitos, modas e símbolos, fala e música, costumes e crenças, geram os memes. No entanto, seu ponto de ignição permanece um mistério. Dawkins definiu o meme como unidade replicadora da evolução (cultural) humana. Ele se autopropaga, espontâneo, autossuficiente, independente do meio/hospedeiro. Diria que o meme detém o homem enquanto o homem acredita que o detém. Apesar de somente possível através do humano, em sua complexidade, o homem é um motorista de um carro sobre trilhos meméticos.
Inibindo a própria credulidade, dá-se um exemplo de meme, talvez o mais poderoso deles: Deus. A ideia de um ser onipotente e único foi replicado por anos através da cultura oral, cânticos e tradição em efeito geracional e local. Com o tempo, difundido em maior escala, ganhou um símbolo que unia toda sua magnitude. Com a crença instaurada pela palavra, foi absorvida por um poder social (Império Romano) e a partir dele tornou-se base para a cultura ocidental, adaptando-o e se adaptando em leis, aderindo à cultura e arte, cotidiano, através de processos meméticos consecutivos. Os valores sociais ocidentais, seja lá seu credo, possuem origens cristãs (não que não existam em outras vertentes). De qualquer forma, todos frutos de memes. Ideias poderosas, conteudistas, influenciadoras da cultura (e por ela influenciadas), por vezes complexas e de fácil assimilação e identificação, logo, proliferação. Fogo, roupas, argila, papel, escrita, fibra óptica e internet são outros exemplos.
Um meme pode ser um também um costume. Escovar os dentes é um meme. Olhar para os dois lados da rua ao atravessá-la também é um meme. São hábitos que nos favorecem e beneficiam, por são facilmente adquiridos e tornam-se parte do nosso ser (biológico, não?). Os memes, então, fazem parte da sobrevivência do humano e, por ele, tem sua própria permanência. Há de se lembrar também que os animais são dotados de capacidades meméticas. O canto das aves tem muito de genético, mas também são influenciados por imitação. Algumas espécies de primatas adquirem habilidades observando outro, como chimpanzés que usam uma pedra para abrir um fruto. Se facilitam a sobrevivência e transmitem uma informação, são memes de fácil observação.
Em um mundo binário, como diria Turing, se há meme benéfico, há seu oposto. Silêncio é ausência de barulho. Barulho é ausência de silêncio. A paz só é possível se existir guerra. Não há morte sem vida. Os memes também são depredantes ao ser humano. O racismo, étinopartição, nazismo, são ideias que se reproduzem de forma memética, pois encontram condições de indução, disseminação e identificação. Memes são poderosos influenciadores, para o bem e para o mal. O que dizer, ainda, das crenças extremistas do islã? Seus homens-bombas dispostos a se sacrificar por uma promessa no pós-vida, não seriam fruto da sedução de uma ideia com alto grau de manipulação e poder? Outro meme.
Hoje, é possível entender o que é um meme e seu funcionamento. Durante anos ele foi algo natural, imperceptível. Aos poucos seu entendimento foi se tornando uma ciência. Logo, manipulado. A compreensão da importância da sonoridade para um meme foi crucial para práticas culturais e comerciais. O ritmo e sonoridade de um jingle, um slogan, determinou – e determina, a assimilação do conceito pelo consumidor. A capacidade influenciadora e disseminadora de um meme ganhou novos ares com a era digital. Os memes, claro, espalhados por todas as redes socais. Os memes de internet são um fenômeno interessante que possui uma particularidade com relação ao meme “formal”; a efemeridade. Esses memes têm geração espontânea e, por sua baixa complexidade e informação, desaparecendo da mesma forma. Estenderia-me, mas não sou capaz de opinar. É um assunto polêmico, mamilos! Voltando, você já ouviu falar do bug do milênio?
No último ano do século passado uma informação se espalhou pelo mundo. Ele dizia que as máquinas, ao entrarmos no século 2000, iriam parar, entrar em looping eterno, que seus relógios internos parariam. Foi o primeiro meme digital e gerou dor de cabeça para muita gente. Outro meme digital são as correntes. Outrota o Orkut, agora Facebook e Whatsapp estão cheios delas. Proliferam-se, contaminam, geram crença. Antes dos computadores as correntes já se espalhavam por meio de cartas, nos EUA, se você acredita, envie essa mensagem para 5 amigos e algo bom lhe acontecerá nessa semana!
A comparação de Dawkins entre meme e gene não se isentou das críticas. É interessante como um conceito muito bem elaborado pode gerar identificação, entendimento e reflexão, e uma outra ideia pode pô-la em descrença. Seria um duplipensar (George Orwell). A crítica consiste em aspectos interessantes sobre a comparação genética/memética. Diz-se: o gene é físico, o meme é imensurável. Genes são (quase) sempre precisos, memes (quase) nunca. Genes possuem lenta mutação, milhares de anos, enquanto os memes podem ter rápida evolução, em décadas.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Sobre o filme A Vila




O filme “A Vila” vai além de uma produção hollywoodiana de médio orçamento (111,6 milhões USD) dirigida por um candidato a grande diretor, M. Night Shyamalan, que em seu oitavo filme recorreu à característica que o levou rapidamente à notoriedade; reviravoltas e surpresas no enredo. Artifício perigoso e aparentemente preguiçoso não fosse a interessante abordagem da psique humana imposta em cada personagem. Com essa proposta, Shyamalan reacende, à época, a esperança de dias melhores e não somente filmes que se paguem com uma ou duas frases “como eu não percebi isso antes?” de quem os veja.

Temos vergonha do que nos faz humano, segundo Jung. Essa frase cabe perfeitamente por toda a história de Edward Walker (William Hurt) e os demais “anciões” fundadores da vila. Após inúmeros acontecimentos impactantes e tristes em suas vidas, decidem criar um mundo onde pudessem controlar tudo e todos, um mundo fantasia, outra realidade. A Vila surge do desejo de suprimir o princípio de realidade que nos fere, a violência. No entanto, todos lá ainda eram humanos.
Há uma lenda na Vila. Monstros horripilantes vagam pelo bosque dispostos a punir todos que avancem através dos limites da comunidade (recalque) e os limites civilizatórios dos mais inocentes. Quando os desejos humanos, amor e ódio, são instigados pela vivência florescem vermelhos como rosa, a ordem da Vila é rompida e “Aqueles de quem não falamos”, os monstros, cumprem sua função. 

Ivy Walker (Bryce Dallas Howard), Lucius Hunt (Joaquin Phoenix) e Noah Percy (Adrien Brody) são os protagonistas das pulsões inconscientes. O amor de uns é o ódio de outros, desencadeando um evento capaz de desconstruir toda a farsa da Vila.

O filme A Vila ensina, além da clichê frase do Sr. Walker “O amor move o mundo”, que as destrutividades externas não serão eliminadas com mentiras. Cada um precisa controlar sua destrutividade interna para um mundo mais dócil e benevolente.