O estudo da Memética, nomeado assim por Richard
Dawkins, busca entender os processos de transmissão e disseminação de ideias,
valores e conceitos. Em suma, informação; chamados por ele, em uma analogia
precária coma a palavra gene, de meme. O termo deriva do grego mimese
(imitação), sustentando que o conhecimento é obtido por observação e repetição –
note uma criança, oras. Sendo ele, o meme, a menor parte da informação (se o
gene é a unidade da genética), diz Dawkins que uma ideia surge, e simplesmente
surge, no cérebro humano, transpassa esse limite chegando a outros cérebros,
onde se desenvolvem, evoluem “biologicamente”, e sendo, ainda, armazenadas em
unidades físicas como livros, computadores, cadeiras. Sim, pois, uma cadeira é
nada mais que o acúmulo de ideias definidas para uma função. O objeto não é um
meme, porém, sim o que ela transmite, a informação nela contida. O meme é a
dança e não o dançarino. Entretanto, o meme surgiria mesmo do nada?
Como o gene adquiriu sua complexidade em meio
a um Caldo Primordial durante tempos, o meme desenvolve-se na Cultura humana.
Essa Sopa de ideias e conceitos, modas e símbolos, fala e música, costumes e
crenças, geram os memes. No entanto, seu ponto de ignição permanece um
mistério. Dawkins definiu o meme como unidade replicadora da evolução
(cultural) humana. Ele se autopropaga, espontâneo, autossuficiente,
independente do meio/hospedeiro. Diria que o meme detém o homem enquanto o
homem acredita que o detém. Apesar de somente possível através do humano, em
sua complexidade, o homem é um motorista de um carro sobre trilhos meméticos.
Inibindo a própria credulidade, dá-se um
exemplo de meme, talvez o mais poderoso deles: Deus. A ideia de um ser onipotente
e único foi replicado por anos através da cultura oral, cânticos e tradição em
efeito geracional e local. Com o tempo, difundido em maior escala, ganhou um
símbolo que unia toda sua magnitude. Com a crença instaurada pela palavra, foi
absorvida por um poder social (Império Romano) e a partir dele tornou-se base
para a cultura ocidental, adaptando-o e se adaptando em leis, aderindo à
cultura e arte, cotidiano, através de processos meméticos consecutivos. Os
valores sociais ocidentais, seja lá seu credo, possuem origens cristãs (não que
não existam em outras vertentes). De qualquer forma, todos frutos de memes. Ideias
poderosas, conteudistas, influenciadoras da cultura (e por ela influenciadas),
por vezes complexas e de fácil assimilação e identificação, logo, proliferação.
Fogo, roupas, argila, papel, escrita, fibra óptica e internet são outros exemplos.
Um meme pode ser um também um costume.
Escovar os dentes é um meme. Olhar para os dois lados da rua ao atravessá-la
também é um meme. São hábitos que nos favorecem e beneficiam, por são facilmente
adquiridos e tornam-se parte do nosso ser (biológico, não?). Os memes, então,
fazem parte da sobrevivência do humano e, por ele, tem sua própria permanência.
Há de se lembrar também que os animais são dotados de capacidades meméticas. O
canto das aves tem muito de genético, mas também são influenciados por
imitação. Algumas espécies de primatas adquirem habilidades observando outro,
como chimpanzés que usam uma pedra para abrir um fruto. Se facilitam a sobrevivência
e transmitem uma informação, são memes de fácil observação.
Em um mundo binário, como diria Turing, se há
meme benéfico, há seu oposto. Silêncio é ausência de barulho. Barulho é
ausência de silêncio. A paz só é possível se existir guerra. Não há morte sem
vida. Os memes também são depredantes ao
ser humano. O racismo, étinopartição,
nazismo, são ideias que se reproduzem de forma memética, pois encontram
condições de indução, disseminação e identificação. Memes são poderosos
influenciadores, para o bem e para o mal. O que dizer, ainda, das crenças
extremistas do islã? Seus homens-bombas dispostos a se sacrificar por uma promessa
no pós-vida, não seriam fruto da sedução de uma ideia com alto grau de
manipulação e poder? Outro meme.
Hoje, é possível entender o que é um meme e
seu funcionamento. Durante anos ele foi algo natural, imperceptível. Aos poucos
seu entendimento foi se tornando uma ciência. Logo, manipulado. A compreensão
da importância da sonoridade para um meme foi crucial para práticas culturais e
comerciais. O ritmo e sonoridade de um jingle, um slogan, determinou – e determina,
a assimilação do conceito pelo consumidor. A capacidade influenciadora e
disseminadora de um meme ganhou novos ares com a era digital. Os memes, claro,
espalhados por todas as redes socais. Os memes de internet são um fenômeno
interessante que possui uma particularidade com relação ao meme “formal”; a
efemeridade. Esses memes têm geração espontânea e, por sua baixa complexidade e
informação, desaparecendo da mesma forma. Estenderia-me, mas não sou capaz de
opinar. É um assunto polêmico, mamilos! Voltando, você já ouviu falar do bug do
milênio?
No último ano do século passado uma
informação se espalhou pelo mundo. Ele dizia que as máquinas, ao entrarmos no
século 2000, iriam parar, entrar em looping eterno, que seus relógios internos
parariam. Foi o primeiro meme digital e gerou dor de cabeça para muita gente.
Outro meme digital são as correntes. Outrota o Orkut, agora Facebook e Whatsapp
estão cheios delas. Proliferam-se, contaminam, geram crença. Antes dos
computadores as correntes já se espalhavam por meio de cartas, nos EUA, se você
acredita, envie essa mensagem para 5 amigos e algo bom lhe acontecerá nessa
semana!
A comparação de Dawkins entre meme e gene não
se isentou das críticas. É interessante como um conceito muito bem elaborado pode
gerar identificação, entendimento e reflexão, e uma outra ideia pode pô-la em
descrença. Seria um duplipensar (George Orwell). A
crítica consiste em aspectos interessantes sobre a comparação
genética/memética. Diz-se: o gene é físico, o meme é imensurável. Genes são
(quase) sempre precisos, memes (quase) nunca. Genes possuem lenta mutação,
milhares de anos, enquanto os memes podem ter rápida evolução, em décadas.