terça-feira, 1 de março de 2016

Galáxias e espólios



Carregamos uma galáxia nos olhos
Brilhante e sem vida
Como amamos a nostálgica caixa de espólios
Distante e perdida

A medalha da guerra de Carlos
Era um importante símbolo
Da luta, do sangue, dos calos
Um vinho doce e víboro

Lúcia se agradava com a ignorância
Ignorava as dores, as marcas
Esperta desde a infância
Onde deixou seus maiores traumas

Carlos e Lúcia
Unidos
Carne e unha
Desconhecidos

Noites só na cama de casal
Desprendiam seus pesadelos calados
Um mar inteiro de sal
Solitários lado a lado

Que houvesse amor
Ou, se o visse
Mais ou menos cor
Creio que existisse

Mas, carregamos uma galáxia nos olhos
Brilhante e sem vida
Como amamos a nostálgica caixa de espólios
Distante e perdida

Amanhã e hoje


Amanhã eu tenho um amigo
para conhecer
Nele confio
confio, pois, devo para ser

Depois, à tarde
tenho um cachorro
para enterrar, arde
pouco

Eu tenho planos para cada
amanhã, mas, hoje
Hoje não tenho nada
Tudo me foge

Eu tenho uma mãe, um pai
amanhã, comigo
para lembrar do que vai
quando sozinho

Amanhã eu tenho uma linda garota
E nós, uma pequena vida
Proteger, estar, me logra
Numa casa no topo da descida

Amanhã, mas hoje não
Hoje nada possuo
Hoje, então
o vácuo é mútuo

Amanhã, sei que terei
quem olha por mim
Quem? Ei...
Sei que sim

O hoje me estranha
pelo arredio semblante
O amanhã me ganha
ainda que distante

Amanhã eu tenho
Hoje, falta
mesmo sendo
tudo da mesma alma

No hoje de posse
quem nada tem, veja
Nada é e perece
Se nada é, nada terá, até que seja

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Heróis do brainstorming

Didaticamente, o brainstorming trata-se de uma atividade feita por duas ou mais pessoas onde as ideias são despejadas e exploradas sem modéstia ou timidez, findando em uma reunião dos melhores conceitos. A técnica foi desenvolvida pelo publicitário Alex Osborn. 


A esmagadora maioria dos heróis foi criada por duplas dinâmicas nos primórdios dos quadrinhos, muito presentes a partir de 1930. Superficialmente, tratava-se de um roteirista e um desenhista. Entretanto, entre eles há o brainstorming. A troca de ideias foi determinante para criações eternas que, se fossem feitas por uma única mente, dificilmente ocorreriam de forma tão bem sucedida. Artistas como Stan Lee e Jack Kirby, Bill Finger e Bob Kane, Jerry Siegel e Joe Shuster, dentre tantos outros, uniam suas imaginações em discussões de múltiplas ideias a fim de chegar a definição perfeita para cada novo herói.

Bill Finger e Bob Kane - Batman

Bob Kane
A dupla criou em 1939 o herói que possui o maior numero de fãs. O homem-morcego foi concebido assim mesmo, meio homem, meio morcego, por Bob Kane. Ao mostrar para seu amigo Bill Finger a concepção do personagem e um esboço os dois executaram o brainstorming. Kane criou o conceito, o nome e outros pequenos detalhes e Finger sugeriu que Batman tivesse uma capa ao invés de asas, além de um capuz e luvas. Finger também sugeriu remover as partes coloridas do uniforme concebido por Kane e manter apenas o preto e o cinza.

Uma breve curiosidade: Devido às práticas editoriais da DC na época, todas as histórias do Batman foram publicadas como sendo de autoria de Bob Kane (Kane apresentado o personagem sozinho, sendo o criador "oficial"), o que significava que Finger não recebia nenhum crédito por seu trabalho. Até a sua morte em 1974, ele não obteve o reconhecimento merecido, e tornou-se sinônimo ("fingered") na indústria de quadradinhos quando se quer dizer que o autor não recebeu nenhum crédito por sua história. Hoje, em todas as produções que envolvam o Batman, Finger é devidamente creditado.


Steve Ditko e Stan Lee - Homem-Aranha
Lee na adaptação cinematográfica do Homem-Aranha
O já consagrado Stan Lee idealizou um personagem que tivesse como símbolo algo que, de imediato, não representasse grandiosidade e força. Stan diz ter pensado em muitos insetos até chegar a aranha. Após a iniciação do projeto, tendo já muitas das características aracnídeas do personagem; andar pelas paredes, disparo de teia (através de dispositivos por ele mesmo criados "web-shotters") e capacidade cognitiva ao perigo, o "sentido-aranha", além de super força e agilidade, costumeiras a heróis. Ao mostrar seu projeto para Ditko, o Aranha cresceu bastante ganhando características psicológicas e sociais decisivas para ser o sucesso entre o público das histórias em quadrinho. Peter Parker tornou-se um adolescente órfão, educado e criado pela sua Tia May e o seu Tio Ben, que tinha que lidar com as lutas diárias normais da sua idade, em adição aquelas que tem como combatente do crime mascarado.


Jerry Siegel e Joe Shuster - Superman
Siegel e Shuster
Foram colegas desde a escola e nutriam o gosto por ficções cientificas. Na revista Science Fiction: The Advance Guard of Future Civilization, em 1932, lançaram a primeira versão do personagem, então concebido como um vilão cujos poderes psíquicos foram usados para manipular outras pessoas e dominar a humanidade.
"Super-man", vilão
Nos anos seguintes Superman passaria por uma série de reformulações nas mãos dos dois autores -agora um herói, que passariam a oferecê-lo a diversas empresas, sempre com resultados negativos , até que em 1938 a "National Periodical Publications" os convidou para contribuir com um novo personagem para a mais recente publicação Detective Comics. Eis, então, o Super. Logo em seu primeiro ano de publicação serial, 1938, Siegel e Shuster foram forçados a expandir o universo do herói para preencher a demanda que tinha-se por esse recém criado ícone. Eles criaram, então, toda a mitologia do herói que, por conseguinte, criou uma gama de novos personagens.

Mulher-Maravilha - Um brainstorming trivial
A criação da primeira super-heroína deve-se a uma pequena troca de ideias entre Dr. William Moulton Marston, dito criador, e sua esposa, Elizabeth Holloway Marston, contribuinte decisiva. William Moulton Marston, um psicólogo já famoso por inventar o polígrafo (precursor mecânico do laço mágico), teve a ideia para um tipo novo de super-herói, um que triunfaria não com punhos ou poderes, mas com amor. "Bom", disse Elizabeth. "Mas faça-lhe uma mulher." Ao fim, também, haviam punhos e poderes.


Quarteto Fantástico - Brainstorming incial em um campo de golfe
Em 1961, o editor-chefe da Timely Comics (a editora precursora da Marvel), Martin Goodman, estava a jogar uma partida de golfe com o editor rival Jack Liebowitz da DC Comics. Liebowitz contou a Goodman sobre o sucesso que a DC estava a ter recentemente com a Liga da Justiça, um nova série que apresentava uma equipe formada por vários personagens de sucesso da editora.
Baseado nesta conversa, Goodman decidiu que sua companhia deveria começar a publicar a sua própria série sobre uma super-equipe. Stan Lee, que estava prestes a deixar a indústria assim que seu contrato acabasse, associou-se ao desenhista Jack Kirby para produzir uma revista inovadora. Através de muito trabalho de brainstorming a dupla decidiu as prioridades do novo projeto; unir a ideia de família aos super-heróis, com problemas, falhas, desentendimentos e humanidade. Assim criaram o Quarteto Fantástico, um grupo por vezes disfuncional e emocional, sem máscaras ou identidades secretas, sendo a "primeira família" da Marvel. O título ditou o modelo de herói que tornou-se o standard para a editora ao longo dos anos, graças a colaboração criativa de brainstorming entre Lee e Kirby.


Senhor Fantástico, Mulher-Invisível, Tocha-Humana e Coisa, o Quarteto.



segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Teatro de Nelson Rodrigues

  Nos idos da década de 1940, Nelson Rodrigues solidificava uma nova postura dramatúrgica brasileira, influenciando gerações e redefinindo para sempre o teatro, o qual, hoje, inclusive, funde artista e arte; o chamado Teatro Moderno de Nelson Rodrigues.
  Ele, que também foi jornalista, causou polêmica e estranhamento com as particularidades da peça Vestido de Noiva, sendo considerado o marco inaugural do nosso teatro contemporâneo. O espetáculo, que estreou nos palcos cariocas em 1943, sob a direção de Zbigniew Ziembinski, chamou a atenção por se passar em três planos distintos que se cruzam – memória, alucinação e realidade, criando uma viagem ao interior da mente e da alma da personagem principal.
  Sobre a peça especificamente, destacavam-se elementos na narrativa os quais ajudam a entender as inovações impostas por Rodrigues. Antes, o teatro moderno brasileiro teve destaque com as peças “O Rei da Vela”; “O Homem e o Cavalo” e “A Morta”, de Oswald de Andrade. No entanto, tratava-se de um teatro elitista, engajado e intelectualizante, envolvida, muitas vezes, por improvisos de grandes astros mimados.
  Com "Vestido de Noiva" Nelson - e Ziembinski, impõe a arte pela arte em cima do tablado. Lida com conceitos metafísicos tocando a espiritualidade do homem e as preocupações fundamentais da alma, alcançando, inevitavelmente, sua maior questão; a morte. A peça revela o pessimismo moral do autor expresso através da agonizante protagonista Alaíde durante sua permanência no hospital, destacando uma sociedade baseada no desejo, na disputa, na inveja e na traição, engrandecendo muito a obra. Nelson Rodrigues apôs ao título de sua peça a indicação: tragédia em três atos.
  Seu marcante espetáculo uniu as faces que caracterizaram essa etapa da dramaturgia no Brasil, inovando não apenas na temática, mas nos recursos cênicos, exigindo sensibilidade e destreza a encenadores, diretores e iluminadores que davam vida a suas peças. Se, quando nem país éramos, as encenações dos Autos propagavam dogmas cristãos e doutrinavam os povos indígenas, depois de Rodrigues e sua perspicácia única, o teatro desnuda aspectos proibidos da vida familiar e sexual dos brasileiros, chocando plateias lotadas. 


quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Você conhece Francisco de Vitória?


Nos anos 1500 -vocês sabem, ocorreram as Grandes Navegações, quando os reinos europeus buscavam domínio de novos territórios, dizimando, para esse fim, milhares e milhares de outros humanos que já viviam em tais terras. Tupi-guarani, Ianomâmi, Incas, entre outros. 

Nessa mesma época ainda, tão distante dos anos 1980, data da declaração dos direitos humanos em definitivo, Francisco De Vitória, Universidade de Salamanca na Espanha, propunha o pensamento a favor daqueles que, apesar de humanos, tornavam-se animais de carga e trabalho, quando não morriam nas mãos brancas.
De Vitória acreditava que a origem da lei emanava da própria natureza, dado que todos dela surgem e compartilham a vida. Portanto, a ideia de direito natural surgia enfatizando a liberdade individual e a igualdade, pois, no começo, tudo é comum a todos.

Como todo visionário, Francisco de Vitória não teve facilidade despejando seus simplórios pensamentos. A época confrontou a visão dominante da Igreja Católica e das potências coloniais europeias. A moral cristã tornava legítimo conquistar e governar os nativos. De Vitória irritou também monarcas, em especial o Rei Carlos V, da Espanha, ao ameaçar seu direito divino de comandar. O estudioso definiu que a guerra de dominação justificada no poder catequizador era contraditória. Usando as próprias leis cristãs ele disse que era do homem o livre-arbítrio, portanto, se escolhesse não ser inserido nos costumes de outra civilização, que não fossem forçados.

De Vitória separou as questões da justiça e da moralidade da religião, em 1500, e lançou alicerces para estudos futuros do direito internacional e dos direitos humanos. A doutrina em que estados beligerantes têm responsabilidades e que os não combatentes têm direitos -preservados nas convenções de Haia e Genebra- originou-se em seus pensamentos.


A pergunta que fica é; cadê os direitos humanos dos índios?