sábado, 28 de maio de 2016

Memes




O estudo da Memética, nomeado assim por Richard Dawkins, busca entender os processos de transmissão e disseminação de ideias, valores e conceitos. Em suma, informação; chamados por ele, em uma analogia precária coma a palavra gene, de meme. O termo deriva do grego mimese (imitação), sustentando que o conhecimento é obtido por observação e repetição – note uma criança, oras. Sendo ele, o meme, a menor parte da informação (se o gene é a unidade da genética), diz Dawkins que uma ideia surge, e simplesmente surge, no cérebro humano, transpassa esse limite chegando a outros cérebros, onde se desenvolvem, evoluem “biologicamente”, e sendo, ainda, armazenadas em unidades físicas como livros, computadores, cadeiras. Sim, pois, uma cadeira é nada mais que o acúmulo de ideias definidas para uma função. O objeto não é um meme, porém, sim o que ela transmite, a informação nela contida. O meme é a dança e não o dançarino. Entretanto, o meme surgiria mesmo do nada?
Como o gene adquiriu sua complexidade em meio a um Caldo Primordial durante tempos, o meme desenvolve-se na Cultura humana. Essa Sopa de ideias e conceitos, modas e símbolos, fala e música, costumes e crenças, geram os memes. No entanto, seu ponto de ignição permanece um mistério. Dawkins definiu o meme como unidade replicadora da evolução (cultural) humana. Ele se autopropaga, espontâneo, autossuficiente, independente do meio/hospedeiro. Diria que o meme detém o homem enquanto o homem acredita que o detém. Apesar de somente possível através do humano, em sua complexidade, o homem é um motorista de um carro sobre trilhos meméticos.
Inibindo a própria credulidade, dá-se um exemplo de meme, talvez o mais poderoso deles: Deus. A ideia de um ser onipotente e único foi replicado por anos através da cultura oral, cânticos e tradição em efeito geracional e local. Com o tempo, difundido em maior escala, ganhou um símbolo que unia toda sua magnitude. Com a crença instaurada pela palavra, foi absorvida por um poder social (Império Romano) e a partir dele tornou-se base para a cultura ocidental, adaptando-o e se adaptando em leis, aderindo à cultura e arte, cotidiano, através de processos meméticos consecutivos. Os valores sociais ocidentais, seja lá seu credo, possuem origens cristãs (não que não existam em outras vertentes). De qualquer forma, todos frutos de memes. Ideias poderosas, conteudistas, influenciadoras da cultura (e por ela influenciadas), por vezes complexas e de fácil assimilação e identificação, logo, proliferação. Fogo, roupas, argila, papel, escrita, fibra óptica e internet são outros exemplos.
Um meme pode ser um também um costume. Escovar os dentes é um meme. Olhar para os dois lados da rua ao atravessá-la também é um meme. São hábitos que nos favorecem e beneficiam, por são facilmente adquiridos e tornam-se parte do nosso ser (biológico, não?). Os memes, então, fazem parte da sobrevivência do humano e, por ele, tem sua própria permanência. Há de se lembrar também que os animais são dotados de capacidades meméticas. O canto das aves tem muito de genético, mas também são influenciados por imitação. Algumas espécies de primatas adquirem habilidades observando outro, como chimpanzés que usam uma pedra para abrir um fruto. Se facilitam a sobrevivência e transmitem uma informação, são memes de fácil observação.
Em um mundo binário, como diria Turing, se há meme benéfico, há seu oposto. Silêncio é ausência de barulho. Barulho é ausência de silêncio. A paz só é possível se existir guerra. Não há morte sem vida. Os memes também são depredantes ao ser humano. O racismo, étinopartição, nazismo, são ideias que se reproduzem de forma memética, pois encontram condições de indução, disseminação e identificação. Memes são poderosos influenciadores, para o bem e para o mal. O que dizer, ainda, das crenças extremistas do islã? Seus homens-bombas dispostos a se sacrificar por uma promessa no pós-vida, não seriam fruto da sedução de uma ideia com alto grau de manipulação e poder? Outro meme.
Hoje, é possível entender o que é um meme e seu funcionamento. Durante anos ele foi algo natural, imperceptível. Aos poucos seu entendimento foi se tornando uma ciência. Logo, manipulado. A compreensão da importância da sonoridade para um meme foi crucial para práticas culturais e comerciais. O ritmo e sonoridade de um jingle, um slogan, determinou – e determina, a assimilação do conceito pelo consumidor. A capacidade influenciadora e disseminadora de um meme ganhou novos ares com a era digital. Os memes, claro, espalhados por todas as redes socais. Os memes de internet são um fenômeno interessante que possui uma particularidade com relação ao meme “formal”; a efemeridade. Esses memes têm geração espontânea e, por sua baixa complexidade e informação, desaparecendo da mesma forma. Estenderia-me, mas não sou capaz de opinar. É um assunto polêmico, mamilos! Voltando, você já ouviu falar do bug do milênio?
No último ano do século passado uma informação se espalhou pelo mundo. Ele dizia que as máquinas, ao entrarmos no século 2000, iriam parar, entrar em looping eterno, que seus relógios internos parariam. Foi o primeiro meme digital e gerou dor de cabeça para muita gente. Outro meme digital são as correntes. Outrota o Orkut, agora Facebook e Whatsapp estão cheios delas. Proliferam-se, contaminam, geram crença. Antes dos computadores as correntes já se espalhavam por meio de cartas, nos EUA, se você acredita, envie essa mensagem para 5 amigos e algo bom lhe acontecerá nessa semana!
A comparação de Dawkins entre meme e gene não se isentou das críticas. É interessante como um conceito muito bem elaborado pode gerar identificação, entendimento e reflexão, e uma outra ideia pode pô-la em descrença. Seria um duplipensar (George Orwell). A crítica consiste em aspectos interessantes sobre a comparação genética/memética. Diz-se: o gene é físico, o meme é imensurável. Genes são (quase) sempre precisos, memes (quase) nunca. Genes possuem lenta mutação, milhares de anos, enquanto os memes podem ter rápida evolução, em décadas.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Sobre o filme A Vila




O filme “A Vila” vai além de uma produção hollywoodiana de médio orçamento (111,6 milhões USD) dirigida por um candidato a grande diretor, M. Night Shyamalan, que em seu oitavo filme recorreu à característica que o levou rapidamente à notoriedade; reviravoltas e surpresas no enredo. Artifício perigoso e aparentemente preguiçoso não fosse a interessante abordagem da psique humana imposta em cada personagem. Com essa proposta, Shyamalan reacende, à época, a esperança de dias melhores e não somente filmes que se paguem com uma ou duas frases “como eu não percebi isso antes?” de quem os veja.

Temos vergonha do que nos faz humano, segundo Jung. Essa frase cabe perfeitamente por toda a história de Edward Walker (William Hurt) e os demais “anciões” fundadores da vila. Após inúmeros acontecimentos impactantes e tristes em suas vidas, decidem criar um mundo onde pudessem controlar tudo e todos, um mundo fantasia, outra realidade. A Vila surge do desejo de suprimir o princípio de realidade que nos fere, a violência. No entanto, todos lá ainda eram humanos.
Há uma lenda na Vila. Monstros horripilantes vagam pelo bosque dispostos a punir todos que avancem através dos limites da comunidade (recalque) e os limites civilizatórios dos mais inocentes. Quando os desejos humanos, amor e ódio, são instigados pela vivência florescem vermelhos como rosa, a ordem da Vila é rompida e “Aqueles de quem não falamos”, os monstros, cumprem sua função. 

Ivy Walker (Bryce Dallas Howard), Lucius Hunt (Joaquin Phoenix) e Noah Percy (Adrien Brody) são os protagonistas das pulsões inconscientes. O amor de uns é o ódio de outros, desencadeando um evento capaz de desconstruir toda a farsa da Vila.

O filme A Vila ensina, além da clichê frase do Sr. Walker “O amor move o mundo”, que as destrutividades externas não serão eliminadas com mentiras. Cada um precisa controlar sua destrutividade interna para um mundo mais dócil e benevolente. 




terça-feira, 1 de março de 2016

Galáxias e espólios



Carregamos uma galáxia nos olhos
Brilhante e sem vida
Como amamos a nostálgica caixa de espólios
Distante e perdida

A medalha da guerra de Carlos
Era um importante símbolo
Da luta, do sangue, dos calos
Um vinho doce e víboro

Lúcia se agradava com a ignorância
Ignorava as dores, as marcas
Esperta desde a infância
Onde deixou seus maiores traumas

Carlos e Lúcia
Unidos
Carne e unha
Desconhecidos

Noites só na cama de casal
Desprendiam seus pesadelos calados
Um mar inteiro de sal
Solitários lado a lado

Que houvesse amor
Ou, se o visse
Mais ou menos cor
Creio que existisse

Mas, carregamos uma galáxia nos olhos
Brilhante e sem vida
Como amamos a nostálgica caixa de espólios
Distante e perdida

Amanhã e hoje


Amanhã eu tenho um amigo
para conhecer
Nele confio
confio, pois, devo para ser

Depois, à tarde
tenho um cachorro
para enterrar, arde
pouco

Eu tenho planos para cada
amanhã, mas, hoje
Hoje não tenho nada
Tudo me foge

Eu tenho uma mãe, um pai
amanhã, comigo
para lembrar do que vai
quando sozinho

Amanhã eu tenho uma linda garota
E nós, uma pequena vida
Proteger, estar, me logra
Numa casa no topo da descida

Amanhã, mas hoje não
Hoje nada possuo
Hoje, então
o vácuo é mútuo

Amanhã, sei que terei
quem olha por mim
Quem? Ei...
Sei que sim

O hoje me estranha
pelo arredio semblante
O amanhã me ganha
ainda que distante

Amanhã eu tenho
Hoje, falta
mesmo sendo
tudo da mesma alma

No hoje de posse
quem nada tem, veja
Nada é e perece
Se nada é, nada terá, até que seja

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Heróis do brainstorming

Didaticamente, o brainstorming trata-se de uma atividade feita por duas ou mais pessoas onde as ideias são despejadas e exploradas sem modéstia ou timidez, findando em uma reunião dos melhores conceitos. A técnica foi desenvolvida pelo publicitário Alex Osborn. 


A esmagadora maioria dos heróis foi criada por duplas dinâmicas nos primórdios dos quadrinhos, muito presentes a partir de 1930. Superficialmente, tratava-se de um roteirista e um desenhista. Entretanto, entre eles há o brainstorming. A troca de ideias foi determinante para criações eternas que, se fossem feitas por uma única mente, dificilmente ocorreriam de forma tão bem sucedida. Artistas como Stan Lee e Jack Kirby, Bill Finger e Bob Kane, Jerry Siegel e Joe Shuster, dentre tantos outros, uniam suas imaginações em discussões de múltiplas ideias a fim de chegar a definição perfeita para cada novo herói.

Bill Finger e Bob Kane - Batman

Bob Kane
A dupla criou em 1939 o herói que possui o maior numero de fãs. O homem-morcego foi concebido assim mesmo, meio homem, meio morcego, por Bob Kane. Ao mostrar para seu amigo Bill Finger a concepção do personagem e um esboço os dois executaram o brainstorming. Kane criou o conceito, o nome e outros pequenos detalhes e Finger sugeriu que Batman tivesse uma capa ao invés de asas, além de um capuz e luvas. Finger também sugeriu remover as partes coloridas do uniforme concebido por Kane e manter apenas o preto e o cinza.

Uma breve curiosidade: Devido às práticas editoriais da DC na época, todas as histórias do Batman foram publicadas como sendo de autoria de Bob Kane (Kane apresentado o personagem sozinho, sendo o criador "oficial"), o que significava que Finger não recebia nenhum crédito por seu trabalho. Até a sua morte em 1974, ele não obteve o reconhecimento merecido, e tornou-se sinônimo ("fingered") na indústria de quadradinhos quando se quer dizer que o autor não recebeu nenhum crédito por sua história. Hoje, em todas as produções que envolvam o Batman, Finger é devidamente creditado.


Steve Ditko e Stan Lee - Homem-Aranha
Lee na adaptação cinematográfica do Homem-Aranha
O já consagrado Stan Lee idealizou um personagem que tivesse como símbolo algo que, de imediato, não representasse grandiosidade e força. Stan diz ter pensado em muitos insetos até chegar a aranha. Após a iniciação do projeto, tendo já muitas das características aracnídeas do personagem; andar pelas paredes, disparo de teia (através de dispositivos por ele mesmo criados "web-shotters") e capacidade cognitiva ao perigo, o "sentido-aranha", além de super força e agilidade, costumeiras a heróis. Ao mostrar seu projeto para Ditko, o Aranha cresceu bastante ganhando características psicológicas e sociais decisivas para ser o sucesso entre o público das histórias em quadrinho. Peter Parker tornou-se um adolescente órfão, educado e criado pela sua Tia May e o seu Tio Ben, que tinha que lidar com as lutas diárias normais da sua idade, em adição aquelas que tem como combatente do crime mascarado.


Jerry Siegel e Joe Shuster - Superman
Siegel e Shuster
Foram colegas desde a escola e nutriam o gosto por ficções cientificas. Na revista Science Fiction: The Advance Guard of Future Civilization, em 1932, lançaram a primeira versão do personagem, então concebido como um vilão cujos poderes psíquicos foram usados para manipular outras pessoas e dominar a humanidade.
"Super-man", vilão
Nos anos seguintes Superman passaria por uma série de reformulações nas mãos dos dois autores -agora um herói, que passariam a oferecê-lo a diversas empresas, sempre com resultados negativos , até que em 1938 a "National Periodical Publications" os convidou para contribuir com um novo personagem para a mais recente publicação Detective Comics. Eis, então, o Super. Logo em seu primeiro ano de publicação serial, 1938, Siegel e Shuster foram forçados a expandir o universo do herói para preencher a demanda que tinha-se por esse recém criado ícone. Eles criaram, então, toda a mitologia do herói que, por conseguinte, criou uma gama de novos personagens.

Mulher-Maravilha - Um brainstorming trivial
A criação da primeira super-heroína deve-se a uma pequena troca de ideias entre Dr. William Moulton Marston, dito criador, e sua esposa, Elizabeth Holloway Marston, contribuinte decisiva. William Moulton Marston, um psicólogo já famoso por inventar o polígrafo (precursor mecânico do laço mágico), teve a ideia para um tipo novo de super-herói, um que triunfaria não com punhos ou poderes, mas com amor. "Bom", disse Elizabeth. "Mas faça-lhe uma mulher." Ao fim, também, haviam punhos e poderes.


Quarteto Fantástico - Brainstorming incial em um campo de golfe
Em 1961, o editor-chefe da Timely Comics (a editora precursora da Marvel), Martin Goodman, estava a jogar uma partida de golfe com o editor rival Jack Liebowitz da DC Comics. Liebowitz contou a Goodman sobre o sucesso que a DC estava a ter recentemente com a Liga da Justiça, um nova série que apresentava uma equipe formada por vários personagens de sucesso da editora.
Baseado nesta conversa, Goodman decidiu que sua companhia deveria começar a publicar a sua própria série sobre uma super-equipe. Stan Lee, que estava prestes a deixar a indústria assim que seu contrato acabasse, associou-se ao desenhista Jack Kirby para produzir uma revista inovadora. Através de muito trabalho de brainstorming a dupla decidiu as prioridades do novo projeto; unir a ideia de família aos super-heróis, com problemas, falhas, desentendimentos e humanidade. Assim criaram o Quarteto Fantástico, um grupo por vezes disfuncional e emocional, sem máscaras ou identidades secretas, sendo a "primeira família" da Marvel. O título ditou o modelo de herói que tornou-se o standard para a editora ao longo dos anos, graças a colaboração criativa de brainstorming entre Lee e Kirby.


Senhor Fantástico, Mulher-Invisível, Tocha-Humana e Coisa, o Quarteto.