Naquela manhã sem sol, só neblina
fui eu acordado por um sinal de vida
um choro, berrado, estridente me fez abrir as vistas
e silenciou-se, no ato, como se fechasse a ferida
Eu levantei daquele buraco, de terra
Me ergui ainda molhado num cenário de guerra
talvez seria esse o motivo daquele que a pouco berra
talvez se tornasse meu motivo de lamento, mas não era
Eu corri, e em alguns passos já não vira aquilo
eu estava envolto de belas fadas e esquilos
sinfoniados por uma orquestra de grilos
além de outros bichos de muitos filos
Logo, seu Coruja, me deu o que comer
Me deu um leito e leite morno pra adormecer
Mas eu não queria dormir, queria viver
antes de sair dei minhas palavras para agradecer
Lá estava eu, com montanhas à leste
correndo por vales, planices, estepes
matas, cavernas, e outros tipos destes
até caminhar pelos campos do oeste
Lá, lugar cheio de cheiro
sabor e tempero
o tempo inteiro
eu cai de face num xiqueiro
Ah, seu porco!
Perdoe-e, sou louco!
como posso me redimir e nada ou pouco
tenho de fato.. E ele disse, rouco
"Se está se desculpando por pisar no meu lar
com perdão do trocadilho que vou falar;
espero mesmo que seja desequilibrado, mas vá
não há porque não sorrir para visitas no jantar"
E eu que tinha fome, fui servido
E narrei o que até ali tinha vivido
omiti isso e aquilo
e só falei mesmo das fadas e dos esquilos
Na saída, na estrada, em alguns passos
antes que os porcos se tornassem escassos
enquanto me perguntava o que de fato
eu fiz, faria, e faço
Fui jogado de novo, de cara pro chão
tropecei numa linda pedra redonda que brilhava a paixão
Olhei, olhei e olhei, ninguém disse não
e carreguei a pedra na mão
Com ela eu fui, segui, vivendo
junto a ela fui crescendo
juntos fomos envelhecendo
mas eu não descia meu grande apreço
Pela pedra, que igual não tinha
Tão encantadora e um homem que comprava vendia
logo tacou os olhos pra cima
e eu, sem saber o que fazer, escondia
O homem de chapéu curto
era grande e tornou tudo mais escuro
Me ofereceu muitas coisas, absurdo!
eu disse não e me apressei temendo o furto
Ele insistiu, e pôs suas pernas peludas
envergadas e cascudas
Pra me perseguir até que me alcançou com a cara carrancuda
e, tirando o chapéu, deu ar pro par de chifres corcunda
"Qualquer coisa que tenhas visto e não teve
Qualquer coisa que tenhas tido e perdestes
Qualquer coisa que tenha vivido e morreste
Qualquer preço que tenhas em mente"
E eu, somente, neguei
E o motivo da insistência indaguei
e ele remoído por dentro, pensei
somente deu as costas, e eu deixei
Eu aproveitava cada vento
cada terra, cada fruta, em silêncio
cada paisagem, cada conversa de sentimento
de cada coisa desfrutei por um momento
Certa vez, numa sombra de árvore
Avistei linda e grande ave
esperei contente que cantasse
mas aquela não era uma boa fase
Eu chamei a mulher, que desceu dos galhos
Eu perguntei a ela porque tanto silêncio e um canto falho
Será que para contornar a tristeza não havia atalho?
E ela me disse debaixo daquele orvalho
"Meu canto está torto, não adianta
perdi uma engrenagem da garganta.
A tristeza é tanta!
Sou uma linda ave grande que não canta"
Linda, e mais ainda de perto, diante
daquele desabafo apaixonante
eu não medi forças para ajudar, confiante
mas nenhuma de minhas teorias fez com que ela cante
Ela abriu o bico, e eu vi sua dor
lá, no canto direito superior
faltava uma peça em seu interior
e eu trouxe a solução com amor
Lasquei uma parte, e só uma parte
de minha pedra, e com arte
tracei a forma perfeita pr'aquela ave
que enfim, pôde de novo, cantar nos ares
Eu andei, novamente, por todos os cantos do mapa
e com todos os amores e sorria, e cada
tinha um toque diferente, e do nada
eu senti que faltavam degraus na minha escada
Espaço este que parecia
se preencher quando, agradecida
de manhã, ainda um pouco adormecida
a mulher ave cantava pra mim, lá de cima
Numa dessas conversas eu coloquei uma flor em seu cabelo
Com pressa ela ergueu o mais alto voo, e não voltou cedo
eu vi o amor subir, sumir e hoje percebo
que fui tolo, bobo e o que mais mereço
Meus pés já estavam cansados
e nem todos os lugares mais apreciados
me faziam ter ânimo, pois o mundo era eu, desolado
E qualquer estrada era caminho, qualquer lado
Isto é, por mais que cansado, ainda vivia
E por tudo que eu vira
não contar tudo para outros, não valia
Mas a noite caiu de vez, e fria
Para minha sorte, vi uma cabana
Lá no meio do nada, me chama
Lá tinha lenha, que inflama
e trazia prazer deitado na cama
A dona era uma cega que comprava a preço de ouro
qualquer coisa que brilhasse mais que um pouco
"Isso aí em sua mão direita?" - disse a velha de cabelos louros
E vendi minha pedra, pra evitar mau agouro
Eu não queria! Era tudo que eu tinha
Eu não queria, mas era tudo que eu tinha
e agora meus pés estavam sem sapatilhas
e mais cansados que uma cabrita!
Eu andei até um riacho
e sentei na beira, junto ao fracasso
com o tempo as águas, eu acho
pareciam seguir mais devagar com seus passos
Tudo que eu sabia era andar
e isso só me ensinou a me cansar
Cada estrada me fez sorrir e chorar
Feliz no momento e triste por acabar
E eu queria que fosse mentira
aquilo que eu tinha, a vida
Para que eu pudesse refazer de forma mais divertida
se bem que eu não poderia pensar de forma mais inventiva
Eu aceitei que era verdade
E tudo que eu tinha era o cansaço da idade
e tudo que eu tinha naquele momento de saudade
era o rio, levando folhas, que quisessem profundidade
E levando tudo mais além de folha
que tivesse como escolha
se jogar nele e se perder em bolha
No fim o rio era uma grande tulha
Guardando tudo que não tivesse um lar
afogando tudo que não soubesse amar
livrando tudo que parou de sonhar
e aos poucos suas águas iam parando, parando, até congelar