domingo, 30 de agosto de 2015

A Alemãzinha

   Peçanha, um amigo de idas e vindas, me convidou para passar o final de semana em sua pousada, em Arraial do Cabo. Era baixa temporada e inverno. Ele prometeu que o local seria todo nosso. Eu logo arrumei a bagagem e em poucas horas de uma viagem sonolenta estava na cidadezinha. Desci uma ruazinha pouco iluminada de paralelepípedos desnivelados onde ninguém mais andava. Cheguei à pousada “Vermelha” acompanhada pelo frio e uma sensação estranha causada pela ausência de pessoas pelo caminho, ainda mais para uma mulher de trinta e dois anos medindo um metro e sessenta de altura.
   Andei pela varanda de frente para a praia buscando através das portas de vidro alguma alma viva. Mas não. E a dita sensação estranha cresceu ao sentir-me completamente abandonada. Resolvi entrar. O silêncio era absoluto. Ouvia, apenas, as ondas agredindo a areia branca lá fora num ritmo despreocupado e constante.
   Estava na sala principal, onde as pessoas tomavam seu café da manhã, e ali esperei por poucos minutos, até ser incomodada pela lembrança do que Peçanha havia me dito; que eu fosse até o quarto 207. Direcionei-me a escada. Os degraus curtos e um estranho nervosismo me fizeram trançar o passo, cair e quase bater a cabeça no chão. As coisas não estavam à meu favor naquele dia. Acordei aos vômitos por algum chilique estomacal, com pressa tinha arrebentado o zíper da minha mala e o taxista que me trouxera era um tipo beberrão mal-educado. Esperava que aquele final de semana valesse, e não queria passar por ele com um galo na testa.

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quarta-feira, 27 de maio de 2015

Breve pronunciamento

   A busca pelo conhecimento é imprescindível para todo ser humano, logo, para a humanidade. Aliás, o saber humaniza, traz consciência de si e dos demais. Ensina os direitos, deveres e saber se colocar perante o mundo. Ensina também que nenhum homem tem, entretanto, lugar definido à se colocar. O saber liberta.
   E não há de se contentar com a libertação do indivíduo. Não à acomodação! Tão errado quando o agressor é aquele que silencia. Aquele que vê e não pronuncia é tão culpado quanto o que oprime e destrói. É preciso falar, clamar e reclamar. Não se pode acostumar-se com o errado, por menor que seja. Um "bom dia" mal dado ainda é um "bom dia" e, esperançoso, merece ser respondido à altura. Quem sabe, no dia seguinte, tal "bom dia" seja mais simpático. E isso é vida.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Um pouco sobre Galileu, Darwin e Freud

 Galileu, Darwin e Freud foram pensadores que, em seu tempo e em sua área, contribuíram enormemente para o andamento da sociedade, desenvolvendo ideias já existentes, aprimorando-as, ou firmando seus próprios conceitos. Os três revolucionaram o modo de pensar e influenciaram o mundo até os dias atuais.
   Galileu Galilei (1564-1642) viveu em uma época que a ciência ainda estava sob a influência do misticismo e da dogmática Igreja Católica. Seu primeiro mérito, então, foi saber separar definitivamente os seus estudos destas interferências e, mais tarde, desafiar a poderosa religião cristã, afirmando que a Terra não é o centro do universo. Ele, portanto, teve seu maior êxito por redefinir o mundo por completo. Ainda assim, Galileu definiu muitos estudos fundamentais para os anos seguintes da astronomia e a ciência de modo geral.
   Charles Darwin foi outro cientista que bateu de frente com a teoria cristã, porém, numa época de mais aceitação, 1800. Não fosse a assombrosa constatação de Darwin, talvez tivesse tido menos problemas com a Igreja Católica, pela qual foi acusado de satanismo, ao demonstrar a Teoria Evolucionista, baseado na observação, que mais tarde viria a ser completada no que é chamado de Neo-Darwinismo. Ou seja, muitos dos estudos iniciados por estes e outros neste texto citados, se complementaram nas décadas posteriores.
   Se os dois pensadores acima agiram de forma a mudar a sociedade, para então mudar o homem, Sigmund Freud (1856-1939) agiu de maneira reversa, mas não menos eficaz; mudou o homem para atingir a sociedade. Seu trabalho consistiu em dissecar a mente humana e, por vezes grotesco, tentar entender o subconsciente e aquilo que o homem não comanda em seu universo.

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sexta-feira, 24 de abril de 2015

Genialidade humana



Perguntaram a um pintor qual a mais verdadeira expressão humana de genialidade
Ele disse: Compor uma bela canção!
Perguntaram, também, a um músico qual a mais verdadeira genialidade
E ele disse: Executar uma apunhado de cálculos!
Perguntaram, então, a um matemático qual a verdadeira genialidade
Ele respondeu: Escrever uma história que cative!
Perguntaram a um escritor qual a verdadeira genialidade do homem
Ele disse: Construir um grande monumento!
Então, perguntaram a um arquiteto, qual seria a verdadeira genialidade
E ele falou: Ser capaz de entender o funcionamento do universo natural!
Perguntaram a um cientista qual seria a verdadeira genialidade
Ele disse: Escupir formas perfeitas!
Perguntaram para um escultor qual a verdadeira genialidade
E ele falou: Ser capaz de inventar ferramentas!
Perguntaram a um inventor qual é a verdadeira expressão de genialidade
Ele respondeu: Pintar um quadro!
Questionaram, por fim, a Leonardo di Ser Piero da Vinci qual a maior expressão humana de genialidade
E ele disse: Amar.

Para muitos a genialidade do ser humano pode ser expressa das mais diversas formas, visto que somos seres criativos e curiosos, de diferentes maneiras. Entretanto, nada disso se vale na ausência da mais genial expressão do homem; saber amar, e fazer, qualquer que seja sua função, de maneira apaixonada.



*NOTA : usa-se o nome de da Vinci pois, historicamente, ele foi o maior gênio da face da terra, atuando em todas as ciências.

terça-feira, 31 de março de 2015

A jornada



Naquela manhã sem sol, só neblina
fui eu acordado por um sinal de vida
um choro, berrado, estridente me fez abrir as vistas
e silenciou-se, no ato, como se fechasse a ferida

Eu levantei daquele buraco, de terra
Me ergui ainda molhado num cenário de guerra
talvez seria esse o motivo daquele que a pouco berra
talvez se tornasse meu motivo de lamento, mas não era

Eu corri, e em alguns passos já não vira aquilo
eu estava envolto de belas fadas e esquilos
sinfoniados por uma orquestra de grilos
além de outros bichos de muitos filos

Logo, seu Coruja, me deu o que comer
Me deu um leito e leite morno pra adormecer
Mas eu não queria dormir, queria viver
antes de sair dei minhas palavras para agradecer

Lá estava eu, com montanhas à leste
correndo por vales, planices, estepes 
matas, cavernas, e outros tipos destes
até caminhar pelos campos do oeste

Lá, lugar cheio de cheiro
sabor e tempero
o tempo inteiro
eu cai de face num xiqueiro

Ah, seu porco!
Perdoe-e, sou louco!
como posso me redimir e nada ou pouco
tenho de fato.. E ele disse, rouco

"Se está se desculpando por pisar no meu lar
com perdão do trocadilho que vou falar;
espero mesmo que seja desequilibrado, mas vá
não há porque não sorrir para visitas no jantar"  

E eu que tinha fome, fui servido
E narrei o que até ali tinha vivido
omiti isso e aquilo
e só falei mesmo das fadas e dos esquilos

Na saída, na estrada, em alguns passos
antes que os porcos se tornassem escassos
enquanto me perguntava o que de fato
eu fiz, faria, e faço

Fui jogado de novo, de cara pro chão
tropecei numa linda pedra redonda que brilhava a paixão
Olhei, olhei e olhei, ninguém disse não
e carreguei a pedra na mão

Com ela eu fui, segui, vivendo
junto a ela fui crescendo
juntos fomos envelhecendo
mas eu não descia meu grande apreço

Pela pedra, que igual não tinha 
Tão encantadora e um homem que comprava  vendia
logo tacou os olhos pra cima
e eu, sem saber o que fazer, escondia

O homem de chapéu curto
era grande e tornou tudo mais escuro
Me ofereceu muitas coisas, absurdo!
eu disse não e me apressei temendo o furto

Ele insistiu, e pôs suas pernas peludas
envergadas e cascudas
Pra me perseguir até que me alcançou com a cara carrancuda
e, tirando o chapéu, deu ar pro par de chifres corcunda

"Qualquer coisa que tenhas visto e não teve
Qualquer coisa que tenhas tido e perdestes
Qualquer coisa que tenha vivido e morreste
Qualquer preço que tenhas em mente"

E eu, somente, neguei
E o motivo da insistência indaguei
e ele remoído por dentro, pensei
somente deu as costas, e eu deixei

Eu aproveitava cada vento
cada terra, cada fruta, em silêncio
cada paisagem, cada conversa de sentimento
de cada coisa desfrutei por um momento

Certa vez, numa sombra de árvore
Avistei linda e grande ave
esperei contente que cantasse
mas aquela não era uma boa fase

Eu chamei a mulher, que desceu dos galhos
Eu perguntei a ela porque tanto silêncio e um canto falho
Será que para contornar a tristeza não havia atalho?
E ela me disse debaixo daquele orvalho

"Meu canto está torto, não adianta
perdi uma engrenagem da garganta.
A tristeza é tanta!
Sou uma linda ave grande que não canta"

Linda, e mais ainda de perto, diante
daquele desabafo apaixonante
eu não medi forças para ajudar, confiante
mas nenhuma de minhas teorias fez com que ela cante

Ela abriu o bico, e eu vi sua dor
lá, no canto direito superior
faltava uma peça em seu interior
e eu trouxe a solução com amor

Lasquei uma parte, e só uma parte
de minha pedra, e com arte
tracei a forma perfeita pr'aquela ave
que enfim, pôde de novo, cantar nos ares

Eu andei, novamente, por todos os cantos do mapa
e com todos os amores e sorria, e cada
tinha um toque diferente, e do nada
eu senti que faltavam degraus na minha escada

Espaço este que parecia
se preencher quando, agradecida
de manhã, ainda um pouco adormecida
a mulher ave cantava pra mim, lá de cima

Numa dessas conversas eu coloquei uma flor em seu cabelo
Com pressa ela ergueu o mais alto voo, e não voltou cedo
eu vi o amor subir, sumir e hoje percebo
que fui tolo, bobo e o que mais mereço

Meus pés já estavam cansados
e nem todos os lugares mais apreciados
me faziam ter ânimo, pois o mundo era eu, desolado
E qualquer estrada era caminho, qualquer lado

Isto é, por mais que cansado, ainda vivia
E por tudo que eu vira
não contar tudo para outros, não valia
Mas a noite caiu de vez, e fria

Para minha sorte, vi uma cabana
Lá no meio do nada, me chama
Lá tinha lenha, que inflama
e trazia prazer deitado na cama

A dona era uma cega que comprava a preço de ouro
qualquer coisa que brilhasse mais que um pouco
"Isso aí em sua mão direita?" - disse a velha de cabelos louros
E vendi minha pedra, pra evitar mau agouro 

Eu não queria! Era tudo que eu tinha
Eu não queria, mas era tudo que eu tinha
e agora meus pés estavam sem sapatilhas
e mais cansados que uma cabrita!

Eu andei até um riacho
e sentei na beira, junto ao fracasso
com o tempo as águas, eu acho 
pareciam seguir mais devagar com seus passos

Tudo que eu sabia era andar
e isso só me ensinou a me cansar
Cada estrada me fez sorrir e chorar
Feliz no momento e triste por acabar

E eu queria que fosse mentira
aquilo que eu tinha, a vida
Para que eu pudesse refazer de forma mais divertida
se bem que eu não poderia pensar de forma mais inventiva

Eu aceitei que era verdade
E tudo que eu tinha era o cansaço da idade
e tudo que eu tinha naquele momento de saudade
era o rio, levando folhas, que quisessem profundidade

E levando tudo mais além de folha
que tivesse como escolha 
se jogar nele e se perder em bolha
No fim o rio era uma grande tulha

Guardando tudo que não tivesse um lar
afogando tudo que não soubesse amar
livrando tudo que parou de sonhar
e aos poucos suas águas iam parando, parando, até congelar