Há quatro dias atrás eu fui beber. Saí, fui no bar, onde, geralmente, existem bebidas. Elas estavam lá, à minha volta, se oferecendo. Igual as mulheres daquele local, também. Mas, não. Hoje não. Queria beber, encher a cara, cansar o barman, e levar o estoque para casa e amanhecer dois dias depois, fedendo de bebida, apenas. Nada de mulheres. Não era esse o propósito. Queria esquecer, ocupar o vazio, com cachaça. Chorar não adiantava, apesar da água ser mais densa que o álcool. Lágrimas salgadas são fazem o meu gosto. Álcool é quente. Assim eu bem prefiro. Eu cheguei, o local era do tipo requintado, esperei que o atendente me visse, e pedi "Me dá qualquer um", eu tava putão. O cara olhou para minha cara, sério, e riu, continuando seus afazeres. Olhei no papelzinho e disse "Black velvet", ele me entregou, sem dizer nada. Aquilo era horrível. "..encher a cara.." foi o que eu disse? Foi. "Vodka, pura", pedi. "Agora sim". "Desce mais uma". "Desce outra". "Des .. Dé .. Desse aqui!". Já não sentia meus pés, eram duas horas, eu acho. Também não sentia minha carteira. Aquela ruiva. Aquela. Era o menor dos meus problemas em forma feminina. Cassandra era uma mulher de fibra, admirava isso. Porém, 5 anos em sua empresa e, nada. Atencioso e prestativo, agora, explorado. Julia, mamãe. Não a vejo faz 5 anos, também. Ríspido e orgulhoso, sou eu. Tem ela, aquela .. ela mesmo. Vadia, apenas para desestressar. Argh .. pois bem, eram 2 horas, eu acho. "Dá duas, dessa aí mesmo, é" apontei as garrafas cor de mel, "35", disse ele. "Só tem vinte" mostrei e ele pôs uma garrafa no balcão. Eu queria as duas. "Deixa eu levar a outra também que quando eu acordar eu pago", "Não, senhor". "Qual é! Olha pra eu! Acha que vou dar calote?!", insisti, sutilmente. "Nada pessoal, senhor. Normas da empresa", se explicou o cara do bar. "Aí, camarada", disse um cidadão, pondo uma nota de 50 na mesa. "Manda uma daquela, também", completou o cara estranho. Eu já ia me retirando com minha garrafa. Estava consciente de meus atos. Parecia bebão, mas só para dizer que tinha torrado. Mas não. Sou frouxo, até pra entregar tudo de bandeja. O cara estranho - não por ser aparentemente estranho, não era. Bem comum na verdade. Uns 30 anos, ou mais, vai saber - ele me chamou. "Ei, camarada!" CAMARADA CAMARADA CAMARADA. Eu, 27 anos, carinha de 20 e, muitas vezes, confesso, comportamento de 16. Com um pé atrás, disse "Eae, bro. Tarde já". "Não", disse ele. "Ah, tá", mosquei. "Eu estava ali, te observando .." e antes que eu o levasse a mal, ele completou "Não me leve a mal". "Tá", monosilabei. "É .. você é o tipo de cara que atrai mulheres e, ao mesmo tempo, repele-as. Não é?", ele me definiu e eu concordei, mas disse "Não". "Digamos que você esteja passando por problemas com elas, certo agora?", ele me definiu e eu concordei, e disse "Sim, isso mesmo. Como chegou a essa conclusão?". "Ninguém vêm ao Drink Lick desacompanhado que não para lamentar um amor". Olhei a volta e, apesar de turva, minha visão só via casais, e trios. "E você?" perguntei a ele, "Cadê sua companhia?", ele ergueu o copo, na mesma mão com um cigarro preto. Eu olhei para a cara dele, sujeito apreciável. "E desde quando amores se lamentam?", perguntei, sobre o que ele havia dito. "Amores não se lamentam. Pessoas lamentam amores. Amores apenas são amores", o cara dizia com extrema autoridade. Já com minha confiança em mãos, ele disse "Venha", e fui com ele até o sofá de noventa graus. "Então, o que você quer saber sobre amor?" ele leu minha mente e eu disse, "Porque?", ele abaixou levemente a cabeça como um míope tentando enxergar. "Porque amamos?". "Ora, se você diz amor de namorada, esposa .. eu te pergunto, você já amou?", eu precisava de respostas e o maluco me vinha com questionamentos. "Não sei definir. Bom, tem uma garota. Ela, é .. eu a amo", "Sim", eu continuei "É. Posso falar que a amo por que eu disse isso para ela, a gente conversa sobre muitas coisas. Temos gostos semelhantes, nos divertimos juntos. Fazemos planos juntos. Fazemos .. tudo .. juntos", "Juntos ; parece ser a palavra", ele falou. "Sim", concordei. "Aí está o problema .. em alguns momentos vocês não se suportam, em outros esquecem da existência do outro .. tudo porque cansaram do "juntos". Concordei, em parte. Ela parecia concentrar o tédio do "juntos". "Diga, há quanto tempo se conhecem?" "5 anos", "E a quanto estão brigados?" "5 dias", "Perfeito" disse ele, estranhamente. "Perfeito? Ela está bem. Se diverte. E eu não consigo e, acima disso, não quero, sem ela" .. ele me encarou por alguns segundos. Eu continuei "Sabe .. se ela se jogar pela janela, quem morre sou eu", "A bebida não fala por você, fala?" ele perguntou. "Não agora", respondi. Bruscamente o estranho sacou um relógio de bolso. Isso mesmo. Olhou. Guardou e disse "Diga o que queres e, em 5 dias tudo estará resolvido para você. O que queres?". Eu pensei. Que porra estava acontecendo? Que papo era aquele? Que seja, o cara parecia sábio, e desequilibrado. Coitado. Não fez mal algum. "Rápido, o que queres?", "Uma Marcela com dois éles", eu disse, e ele estranhou. Eu deveria ter sido mais específico, mas, não sou de crendices e ele era um desequilibrado que sabia falar, então, que seja.