sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Uma flor para Rosa

   Em meio a Julianas, Rafaelas, Carolines e Carolinas, Stefanis e Letícias, Marianas e Anas, eu encontrei Rosa. De fato, ela me encontrou. Era meio do ano, cheguei como de costume cedo a escola e ela, Rosa, conseguiu chegar mais cedo ainda. Jamais a vira por ali, e sua indagação me confirmara. "Oi. Onde fica a sala 1901?", disse ela, tocando-me os ombros por trás. Eu, desconcertado, como nunca antes, titubeei. Ela tão naturalmente linda. Tão espontânea. Tão sem medo. "Ali.", disse eu, apontando para a sala 1901, encoberta da pilastra. Ela agradeceu tão rapidamente quanto eu havia me apaixonado e seguiu até lá. Rosa visivelmente saíra de sua escola e matriculou-se no meu coração.
   Eu sou um garoto normal, um garoto qualquer, aluno da 1901. Segui até meu lugar, no fundo, tentando procurar aquele rosto. Em vão. Mal sabia eu que Rosa estava em meio àquele grupinho. Rosa era conhecida, popular, assim que chegou. Uma garota como ela certamente atraia atenção, mas isso não lhe retirava a simplicidade e simpatia. Naquele momento - e durante um bom tempo, eu não sabia que estava perdidamente caidinho por ela. A professora fez o favor de me apresentá-la, pois, não haveria modo de eu saber por conta de minha timidez, frente a ela. "Esta é nossa nova aluna, Rosa", disse, sem pompas. Rosa?
   A cada dia que se seguia eu conhecia mais e mais Rosa, à distância. Era mudo para ela. E ela o mundo para mim. Ela tinha os cabelos naturalmente lindos e negros, os quais enrolava as pontas algumas vezes nas aulas mais estendidas. Sua boca pequena e vermelha, suas sobrancelhas bem definidas na pele branca. Seu nariz discreto e fino. Seus olhos cansados e, paradoxalmente, vívidos. Suas mãos pequenas e, de longe, macias. Seus gestos calmos e fala bem pensada. Eram todos esses detalhes perfeitos.
   Depois de meses naquela escola, Rosa era mais conhecida que eu em anos. Talvez ela não conhecesse tanta gente que a conhecia, como eu. Talvez. Na aula de educação física, lá estava eu, disposto, sem ironia. E ela disse, de longe, "Ei, Felipe!", eu apenas virei em sua direção e esperei que ela se aproximasse. "Tudo bem?", ela perguntou. Eu quase não respondi tão encantado com as sutis sardas que corriam da esquerda para a direita abaixo de seus olhos e eu nunca percebera. Respondi, então, mexendo a cabeça para cima e para baixo."As meninas falaram que eu devia falar com você sobre o trabalho de filosofia", ela disse e eu perguntei, "Como assim?". Ela prosseguiu, "Elas me disseram que você saberia me explicar melhor o que é para fazer, pode?". Acho que até poderia ser visto o sorriso em meus olhos ao ouvir aquelas falas direcionadas a mim. Ela poderia ter me xingado que eu estaria feliz por ter me dado alguma atenção. "Claro. Olha, Aristóteles dizia que ..", ela me cortou, "Não", e deu o sorriso mais lindo, concluindo, "Não agora. A gente tem o final de semana para estudar" e eu apenas, mais uma vez, concordei mentalmente com o que ela dizia, e ela falou, "Será que você pode ir lá em casa amanhã?", eu pirei, muito, e aceitei.
   No sábado, lá estava eu, feliz da vida. No quarto dela, esperando uns lanchinhos feitos pela mãe dela. Expliquei a ela o trabalho de filosofia, e, com o tempo sobrando, estudamos matemática. A mãe dela avisou que meu pai estava a minha espera para me levar para casa. Rapidamente Rosa se despediu de mim, sem antes dizer que foi muito bom estudar comigo naquela tarde. Eu não pude acreditar. Até dois dias antes eu era apenas um carinha que ela pediu uma informação há meses, e que ela nem lembrava mais e naquele momento... Bem.,. Eu não sei.
   Na segunda-feira eu sentia que precisava falar com ela e, encorajado pelas palavras do meu pai, disse a Rosa, "Oi". Ela educadamente respondeu, me desejando bom dia, também. Foi o bastante para mim. Conforme o passar dos dias e semanas, o fim do ano se aproximando, eu me via cada vez mais envolvido a ela e, achei, ela a mim. Meu pai me incentivava cada vez mais, e dava resultados. Logo eu e Rosa éramos melhores amigos. Me sentia bem. E queria mais. O amor que eu nutria por Rosa era grande demais para ter ela como uma amiga. Meu pai, novamente, me ajudou. Disse-me sobre como conquistou minha mãe; com uma flor. Ele me ajudou a escolher a mais bela flor no cominho da escola, e eu a levei, junto de minha apreensão e medo, e paixão. Assim que cheguei fui decidido até Rosa, rodeada de amigos, que também eram meus amigos, mas não tão amigos assim -quem sabe nem tão amigos dela também. Eu comecei a falar algumas coisas, que nem me lembro devido ao nervosismo da ocasião ou quem sabe pela vontade do meu cérebro de esquecer tal momento. Eram coisas românticas, coisas do meu eu mais profundo, coisas mais sinceras que alguém possa declarar a quem se ama. Eram coisas estúpidas. Eu finalizei entregando a flor para Rosa, junto a meu pedido de namoro. As pessoas à volta não pareciam acreditar. Nos segundos de hesitação notei que algumas seguravam o riso, outras pareciam assustadas e umas não fizeram questão de disfarçar nada. "Eu não vou aceitar isso, que brega, Felipe" Rosa atirou em meu peito. Irritada, jogou a flor no chão. "O que você estava pensando? Somos amigos! A-mi-gos!" fuzilou-me. "E o que você falou? Não entendi metade, putz", era um Hiroshima e Nagasaki. Todos ao redor podiam rir, agora. A cena a seguir pode ser imaginada por você aí, para mim já dói escrever até aqui.
   Rosa, minha linda ordinária, continua com seus amigos e uma parte do meu amor. Mas eu... Ah, eu... Não sou mais o Felipe de frases românticas. A garota simples e romantizada mostrou-me que o amor de nada vale hoje em dia. Uma rosa é uma rosa. Todo o amor que poderia eu sentir, errou o alvo, caiu com a rosa, apodreceu com a rosa e não pode ser recuperado.

terça-feira, 29 de julho de 2014

O dono da dor



  No início da noite de hoje, eu a vi. Estava perto e intocável. Não pelo vidro translúcido da janela do ônibus, mas pela covardia minha. Afinal, mesmo que eu pudesse sentir sua respiração, me faltaria voz, ato.
   No início da noite de hoje, no ônibus silenciado pelos fones, conheci o Acaso, o dono da dor. O Acaso é cruel. Inescrupuloso. Perverso. E outros adjetivos similares. Ele, o Acaso, tornou alguns segundos despretensiosos em momentos de martírio. Permitiu que eu a nota-se durante aquele crepúsculo. Permitiu que meu encantamento inicial e fixação contrastasse com a distração e espontaneidade dela, ali, na calçada, aparentemente esperando alguém - que não eu, em meio às pessoas que passavam. Me permitiu que apreciasse seu olhar, seus movimentos. Em um deles sacou o celular e, como de costume, tirou fotos. "O amor é livre", era a inscrição no muro surrado, a qual ela se pôs, rapidamente, a fotografar. Quanto a isso, devo discordar. O amor não é livre. Ele se prende nas algemas da rejeição.  
   No início da noite de hoje o dono da dor me desprovou. A certeza de que a dor, da qual falavam Bukowski, Pessoa, de Azevedo, Neruda e outros, era puro cunho sentimentista e romântico, caíra por terra. A dor existe. Física. E pode parecer bobagem, mas, realmente, no coração. Claro que existem milhares de tipos de dores. Mas as do coração não se medem. Não se comparam. Se sofrem, no meio da noite de hoje.




sábado, 19 de julho de 2014

Coisas que se passam na minha mente quando ninguém parece existir, além de mim


   Nos braços da Inquietude me encontrava em uma dessas madrugadas. Achando, eu, estar sozinho em meio às coisas que pensava esbarrei na Curiosidade, espaçosa que só. Se mostrando interessada, me segurou, queixando-se da Solidão:
- Espere .. - disse, e eu a atendi. Sentamos no banquinho da praça e ali eu já não podia notar as horas.
Ela, a Curiosidade, me indagava sobre muitas coisas. E sobre essas coisas eu tentava lhe dar respostas satisfatórias. Entretanto, ela não se contia, e eu bem que gostei. Era um exercício de imaginação responder à ingênua Curiosidade. Ela me questionou tantas coisas, mas, uma delas é o motivo de meu escrito:
- O que é o Impossível ? - ela perguntou. Não queria lhe entregar uma resposta simples ou qualquer coisa ilusória. Pois, eu mesmo queria saber o que era esse tal Impossível.
   Certamente, eu  não saberia, uma vez que nunca fiz mais do que estava ao meu alcance. Mas a Curiosidade, tão criança, me fazia querer descobrir. Foi quando pensei em alguém que poderia saciar-nos essa dúvida.
   Indaguei o Sr.Tempo sobre o que seria o Impossível. O Tempo, soberbo, me ignorou. Por um momento tive medo e só depois de anos alguém me trouxe a resposta. Eu, alguém que não conhecia muito bem, mas que trazia um ar familiar. Ele parecia falar com autoridade sobre muitos assuntos. E por mais que ocupado, o Eu me disse, em tom pesado:
- O Impossível só existe para aqueles que esperam que o Tempo lhe traga alguma coisa.
Foi o que eu disse para Curiosidade, que, enfim, me deixou descansar.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

"Bom dia" : para não ser tão associável

    Desde pequeno, por minha vó, mãe ou tio, fui instruído a ser educado e solícito com todos. E assim foi, por muito tempo. Fugir dessa conduta naquela época me acarretava algumas broncas. É de se admirar uma criança bem educada e fácil retribuir esse comportamento. Hoje vejo que, na verdade, gera uma sensação de estranheza.
   O tempo passa porque tem que passar, mas corre ou rasteja por nossas mentes, mesmo. O tempo deu uma rastejada e eu já não era uma criancinha ingênua. Dizer "Bom dia", ou qualquer outra saudação adequada ao horário, fazia parte ainda da minha essência, como fui literalmente, adestrado. Mas agora, já não havia exclamação ao fim da frase. Não trazia-me mais o mesmo sentimento ou seja lá o que se passava na minha mente. Neste momento já me questionava se estava deixando de ser quem eu sempre fui ou se era apenas um processo natural condicionado a todos.
   O tempo deu um pique. O "Bom dia" agora já não precisava de resposta, nem mesmo se era bom dia mesmo, ou tarde. Tanto faz. Os problemas não só surgiram, cresceram. Esse tipo de coisa tira do sua vida do âmbito plural para o singular. Por essas e outras que o "dá licença" deu passagem a uma espremida para passar, ou mesmo um esbarrão.
   Não sejamos uns trogloditas! Veja, o comportamento em questão é geral, mas não unânime. O tempo levou minha gentileza - ou parte, e não minha humanidade. Não podemos estar na mente de ninguém e, exatamente por isso, ninguém pode estar na nossa. E nessa época minha mente era um local em que nem mesmo eu gostaria de estar.
   O tempo já aprendeu a correr, e correu. Já passamos do meio dia? Que seja, acontece que agora o "Bom dia", que já não pedia resposta, não queria mais saber de rostos! Sim, claro. Por um caminho tortuoso foram se perdendo muitas coisas, ganhando-se outras, iludindo-se desses mesmos ganhos e perdas e por fim encontrando um caminho realmente, e não trilhas ou atalhos de terra em meio a grama, que por vezes se espaçam e me fizeram perder o fio da meada. E que fique claro que todas essas faltas de gentileza de minha parte só podem ser chamadas de faltas porque eu as perdi naqueles caminhos que disse acima. Não são faltas de gentileza por parte da sociedade, ora pois, isso é ser um adulto da sociedade - pensava. Muito em breve desaprendi a dizer "Bom dia", o mesmo que perdeu a exclamação, seguido da perda da resposta e depois dos rostos.
    As pessoas estão muito preocupadas com seus problemas para se importar com os outros. Afinal, os outros que se preocupem com os seus. É isso. Não há muito o que discutir. A gentileza é um detalhe e é isso que somos todos os dias, seres que não se importam além do seu e se parecem se importar, certamente é por interesses pessoais, ou mera formalidade.
   Há quase cinco meses me mudei para o novo apartamento, menor, mas de melhor localização na cidade.
Descobri ontem que tenho uma vizinha com necessidades especiais, os demais nunca vi de verdade. Não sei o nome do porteiro e muito menos do carinha dos serviços gerais. Não por má vontade ou indiferença, mas por tempo. Sim, ele mesmo. Para todos nós chega um momento em que não temos tempo para mais nada além daquilo que nos interessa. Quando achamos que não temos tempo para mais nada, descobrimos que podemos ter ainda menos tempo. Nesse instante já deixei de formalidades como "Bom dia", nem mesmo me importo se acham isso falta de respeito, afinal, não seria mais despeito perguntar sem ter o menor interesse? Talvez.
   Eu passei muito tempo sendo um cara que não dizia mais que o necessário, e passava a maior parte do tempo adiantando os interesses próprios e coisas do tipo. Em um momento percebi que me distanciei da família e amigos, um  pouco ao menos, e que fechei a porta para novas pessoas na minha vida. Eu passei a ser algo muito diferente do que eu acreditava ser o que sou de verdade, e isso, como num estalo, me trouxe a impressão de que estava errado continuar com isso. É preciso avaliar as perdas e os ganhos não mediante ao que você acha ser um ganho ou uma perda, mas sim a partir daquilo que propomos a nossas mentes como o que é certo ou errado. Se você acha que é certo ganhar em cima da perda alheia, você está errado. E se acha correto perder como um sacrifício para um bem maior, muitas vezes está certo.
   Depois de alguns treinos o "Bom dia" voltou ao meu vocabulário. Não espere que meu cotidiano mude tão facilmente também. Maus hábitos se instalam como de forma confortável e inesperada, mas para acabar com eles .. tsc! O que importa é que minha mente já atentou que, é ela quem faz o tempo correr ou caminhar. E que não existem mundos particulares e sim um, cheio de gente que crê em mundos particulares.
Vou praticar meu "Bom dia" apenas para não ser tão associável, por enquanto. Breve serei aquilo que meus parentes me ensinaram quando pequeno, e que é ainda minha essência. Vou deixar esses adultos admirados como há algum tempo atrás e tentar fazer essa sociedade ser um pouco mais intimista.




quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Minha Loucura

  Semana passada, no curso de inglês, fiz uma descoberta - uma grande descoberta, diga-se. Tal descoberta poderia ser nada no dia seguinte ou mudaria minha vida.
  Minha percepção de mundo já não era a mesma. Todos meus conceitos e ideologias, meus planos e afins haviam sido alterados, se não, ao menos remasterizados.
  Eu descobri que sou louco, ou me tornei.
  Demorei para me aceitar nessa nova condição - na verdade ainda não. Com minha rotina se tornando cada vez mais incompreensível eu me perguntava "como viver sendo um louco?". Eu não sabia.
  Meu eu de antes até o considerava louco, por sempre buscar uma vida intensa e de verdade. "A gente só vive realmente quando está perto da morte", eu costumava dizer. Mas não era bem assim, até certo ponto. Quanto a esta loucura, não me recordo exatamente o momento dessa metamorfose - será que as borboletas se lembram dessa parte de sua vida? Vai saber .. o que se passa é que não me lembro. Simplesmente num dia qualquer, ou melhor, na última quinta - é bom guardar este dia - me dei conta de que era louco - ou somente estava? Só o tempo diria, apesar de não parecer uma simples condição. Eu fui tomado pela loucura por completo, senti minha pele sobre minha pele e meus ossos .. eu, apenas senti-os - já é bastante estranho senti-los, não?
  Bem, com meus fusos trocados, ou substituídos talvez, eu esperei. Só para ver se eu estava em coma ou algo assim, alguma teoria bizarra qualquer, mas não. Era eu, sem ser eu. Não o mesmo eu, um novo eu, com os ares do eu de sempre, uma boa fatia de algo novo e um toque de páprica.
  De qualquer forma, eu estava enlouquecendo com aquela loucura - somente alguém muito equilibrado para saber lidar com a loucura, viu?
  Sem sucesso na minha adaptação, busquei ajuda profissional. A psicanalista Julia Fernnandes parecia capacitada. Na verdade a escolhi por ter dois N's seguidos no nome, alguém com esse nome deve ser foda. Conversa vai, conversa vêm .. meu senso já foi e o dela também e, fui diagnosticado com uma desordem rara e incurável chamada erosaeternus, algo assim, popularmente conhecido como "louco por ella", de verdade. E ela disse mais, me explicou que não percebi o momento exato de minha alteração pois fui infectado aos poucos, em pequenas doses de charme e outros detalhes. A doutora me receitou um tal de "Corra Atrás Dela" e um "Ou Morra Tentando". Fui ver se tinha na farmácia.