segunda-feira, 20 de outubro de 2014
Contando
Entre tantos números possíveis, eu recontava tudo outra vez, sem pressa. Entretanto um quarto era tudo que eu tinha. Todas as coisas cabiam nele, mas todas as coisas não eram muitas, eram o suficiente. O zero resume boa parte da minha vida, não por seu valor; nada, e sim por seu signo, uma circunferência, oval, formando um ciclo .. o que muitas vezes era nada, realmente. Logo pensei no dois, é bom. E percebi que pulei um, ele não me agrada com todo seu individualismo .. apesar de ter suas vantagens. Ah, dois, em determinado momento parecia pouco, fui logo para o 5, pois tive momentos de Vitória, e combinava. Eu poderia montar um conjunto, algo do tipo, mas a cada ato, um número me parecia mais atraente. Segui contando e encontrei o seis. Mal cabia na minha mão, mas eu sempre quis mais. O oito é engraçado, intrigante até. Como um duplo zero. Como se possível dois ciclos se unirem. A esta altura descobri que sim. Porém fiquei no 1 a 0, ou 0 a 1. Um atrás do outro, se bem me entende. E próximo, 18, libertador. Que nada, era justamente o oposto. Então vieram 20, 21, 30, 33, 70, 360 .. até o n, de nada deu certo e recontei. Não ordenado, como nunca foi. Recontei novamente, sem pleonasmo, e percebi que o três é o que mais vale a pena. Ele me faz sorrir :3.
sábado, 6 de setembro de 2014
"O que queres?"
Há quatro dias atrás eu fui beber. Saí, fui no bar, onde, geralmente, existem bebidas. Elas estavam lá, à minha volta, se oferecendo. Igual as mulheres daquele local, também. Mas, não. Hoje não. Queria beber, encher a cara, cansar o barman, e levar o estoque para casa e amanhecer dois dias depois, fedendo de bebida, apenas. Nada de mulheres. Não era esse o propósito. Queria esquecer, ocupar o vazio, com cachaça. Chorar não adiantava, apesar da água ser mais densa que o álcool. Lágrimas salgadas são fazem o meu gosto. Álcool é quente. Assim eu bem prefiro. Eu cheguei, o local era do tipo requintado, esperei que o atendente me visse, e pedi "Me dá qualquer um", eu tava putão. O cara olhou para minha cara, sério, e riu, continuando seus afazeres. Olhei no papelzinho e disse "Black velvet", ele me entregou, sem dizer nada. Aquilo era horrível. "..encher a cara.." foi o que eu disse? Foi. "Vodka, pura", pedi. "Agora sim". "Desce mais uma". "Desce outra". "Des .. Dé .. Desse aqui!". Já não sentia meus pés, eram duas horas, eu acho. Também não sentia minha carteira. Aquela ruiva. Aquela. Era o menor dos meus problemas em forma feminina. Cassandra era uma mulher de fibra, admirava isso. Porém, 5 anos em sua empresa e, nada. Atencioso e prestativo, agora, explorado. Julia, mamãe. Não a vejo faz 5 anos, também. Ríspido e orgulhoso, sou eu. Tem ela, aquela .. ela mesmo. Vadia, apenas para desestressar. Argh .. pois bem, eram 2 horas, eu acho. "Dá duas, dessa aí mesmo, é" apontei as garrafas cor de mel, "35", disse ele. "Só tem vinte" mostrei e ele pôs uma garrafa no balcão. Eu queria as duas. "Deixa eu levar a outra também que quando eu acordar eu pago", "Não, senhor". "Qual é! Olha pra eu! Acha que vou dar calote?!", insisti, sutilmente. "Nada pessoal, senhor. Normas da empresa", se explicou o cara do bar. "Aí, camarada", disse um cidadão, pondo uma nota de 50 na mesa. "Manda uma daquela, também", completou o cara estranho. Eu já ia me retirando com minha garrafa. Estava consciente de meus atos. Parecia bebão, mas só para dizer que tinha torrado. Mas não. Sou frouxo, até pra entregar tudo de bandeja. O cara estranho - não por ser aparentemente estranho, não era. Bem comum na verdade. Uns 30 anos, ou mais, vai saber - ele me chamou. "Ei, camarada!" CAMARADA CAMARADA CAMARADA. Eu, 27 anos, carinha de 20 e, muitas vezes, confesso, comportamento de 16. Com um pé atrás, disse "Eae, bro. Tarde já". "Não", disse ele. "Ah, tá", mosquei. "Eu estava ali, te observando .." e antes que eu o levasse a mal, ele completou "Não me leve a mal". "Tá", monosilabei. "É .. você é o tipo de cara que atrai mulheres e, ao mesmo tempo, repele-as. Não é?", ele me definiu e eu concordei, mas disse "Não". "Digamos que você esteja passando por problemas com elas, certo agora?", ele me definiu e eu concordei, e disse "Sim, isso mesmo. Como chegou a essa conclusão?". "Ninguém vêm ao Drink Lick desacompanhado que não para lamentar um amor". Olhei a volta e, apesar de turva, minha visão só via casais, e trios. "E você?" perguntei a ele, "Cadê sua companhia?", ele ergueu o copo, na mesma mão com um cigarro preto. Eu olhei para a cara dele, sujeito apreciável. "E desde quando amores se lamentam?", perguntei, sobre o que ele havia dito. "Amores não se lamentam. Pessoas lamentam amores. Amores apenas são amores", o cara dizia com extrema autoridade. Já com minha confiança em mãos, ele disse "Venha", e fui com ele até o sofá de noventa graus. "Então, o que você quer saber sobre amor?" ele leu minha mente e eu disse, "Porque?", ele abaixou levemente a cabeça como um míope tentando enxergar. "Porque amamos?". "Ora, se você diz amor de namorada, esposa .. eu te pergunto, você já amou?", eu precisava de respostas e o maluco me vinha com questionamentos. "Não sei definir. Bom, tem uma garota. Ela, é .. eu a amo", "Sim", eu continuei "É. Posso falar que a amo por que eu disse isso para ela, a gente conversa sobre muitas coisas. Temos gostos semelhantes, nos divertimos juntos. Fazemos planos juntos. Fazemos .. tudo .. juntos", "Juntos ; parece ser a palavra", ele falou. "Sim", concordei. "Aí está o problema .. em alguns momentos vocês não se suportam, em outros esquecem da existência do outro .. tudo porque cansaram do "juntos". Concordei, em parte. Ela parecia concentrar o tédio do "juntos". "Diga, há quanto tempo se conhecem?" "5 anos", "E a quanto estão brigados?" "5 dias", "Perfeito" disse ele, estranhamente. "Perfeito? Ela está bem. Se diverte. E eu não consigo e, acima disso, não quero, sem ela" .. ele me encarou por alguns segundos. Eu continuei "Sabe .. se ela se jogar pela janela, quem morre sou eu", "A bebida não fala por você, fala?" ele perguntou. "Não agora", respondi. Bruscamente o estranho sacou um relógio de bolso. Isso mesmo. Olhou. Guardou e disse "Diga o que queres e, em 5 dias tudo estará resolvido para você. O que queres?". Eu pensei. Que porra estava acontecendo? Que papo era aquele? Que seja, o cara parecia sábio, e desequilibrado. Coitado. Não fez mal algum. "Rápido, o que queres?", "Uma Marcela com dois éles", eu disse, e ele estranhou. Eu deveria ter sido mais específico, mas, não sou de crendices e ele era um desequilibrado que sabia falar, então, que seja.
sexta-feira, 29 de agosto de 2014
Uma flor para Rosa
Em meio a Julianas, Rafaelas, Carolines e Carolinas, Stefanis e Letícias, Marianas e Anas, eu encontrei Rosa. De fato, ela me encontrou. Era meio do ano, cheguei como de costume cedo a escola e ela, Rosa, conseguiu chegar mais cedo ainda. Jamais a vira por ali, e sua indagação me confirmara. "Oi. Onde fica a sala 1901?", disse ela, tocando-me os ombros por trás. Eu, desconcertado, como nunca antes, titubeei. Ela tão naturalmente linda. Tão espontânea. Tão sem medo. "Ali.", disse eu, apontando para a sala 1901, encoberta da pilastra. Ela agradeceu tão rapidamente quanto eu havia me apaixonado e seguiu até lá. Rosa visivelmente saíra de sua escola e matriculou-se no meu coração.
Eu sou um garoto normal, um garoto qualquer, aluno da 1901. Segui até meu lugar, no fundo, tentando procurar aquele rosto. Em vão. Mal sabia eu que Rosa estava em meio àquele grupinho. Rosa era conhecida, popular, assim que chegou. Uma garota como ela certamente atraia atenção, mas isso não lhe retirava a simplicidade e simpatia. Naquele momento - e durante um bom tempo, eu não sabia que estava perdidamente caidinho por ela. A professora fez o favor de me apresentá-la, pois, não haveria modo de eu saber por conta de minha timidez, frente a ela. "Esta é nossa nova aluna, Rosa", disse, sem pompas. Rosa?
A cada dia que se seguia eu conhecia mais e mais Rosa, à distância. Era mudo para ela. E ela o mundo para mim. Ela tinha os cabelos naturalmente lindos e negros, os quais enrolava as pontas algumas vezes nas aulas mais estendidas. Sua boca pequena e vermelha, suas sobrancelhas bem definidas na pele branca. Seu nariz discreto e fino. Seus olhos cansados e, paradoxalmente, vívidos. Suas mãos pequenas e, de longe, macias. Seus gestos calmos e fala bem pensada. Eram todos esses detalhes perfeitos.
Depois de meses naquela escola, Rosa era mais conhecida que eu em anos. Talvez ela não conhecesse tanta gente que a conhecia, como eu. Talvez. Na aula de educação física, lá estava eu, disposto, sem ironia. E ela disse, de longe, "Ei, Felipe!", eu apenas virei em sua direção e esperei que ela se aproximasse. "Tudo bem?", ela perguntou. Eu quase não respondi tão encantado com as sutis sardas que corriam da esquerda para a direita abaixo de seus olhos e eu nunca percebera. Respondi, então, mexendo a cabeça para cima e para baixo."As meninas falaram que eu devia falar com você sobre o trabalho de filosofia", ela disse e eu perguntei, "Como assim?". Ela prosseguiu, "Elas me disseram que você saberia me explicar melhor o que é para fazer, pode?". Acho que até poderia ser visto o sorriso em meus olhos ao ouvir aquelas falas direcionadas a mim. Ela poderia ter me xingado que eu estaria feliz por ter me dado alguma atenção. "Claro. Olha, Aristóteles dizia que ..", ela me cortou, "Não", e deu o sorriso mais lindo, concluindo, "Não agora. A gente tem o final de semana para estudar" e eu apenas, mais uma vez, concordei mentalmente com o que ela dizia, e ela falou, "Será que você pode ir lá em casa amanhã?", eu pirei, muito, e aceitei.
No sábado, lá estava eu, feliz da vida. No quarto dela, esperando uns lanchinhos feitos pela mãe dela. Expliquei a ela o trabalho de filosofia, e, com o tempo sobrando, estudamos matemática. A mãe dela avisou que meu pai estava a minha espera para me levar para casa. Rapidamente Rosa se despediu de mim, sem antes dizer que foi muito bom estudar comigo naquela tarde. Eu não pude acreditar. Até dois dias antes eu era apenas um carinha que ela pediu uma informação há meses, e que ela nem lembrava mais e naquele momento... Bem.,. Eu não sei.
Na segunda-feira eu sentia que precisava falar com ela e, encorajado pelas palavras do meu pai, disse a Rosa, "Oi". Ela educadamente respondeu, me desejando bom dia, também. Foi o bastante para mim. Conforme o passar dos dias e semanas, o fim do ano se aproximando, eu me via cada vez mais envolvido a ela e, achei, ela a mim. Meu pai me incentivava cada vez mais, e dava resultados. Logo eu e Rosa éramos melhores amigos. Me sentia bem. E queria mais. O amor que eu nutria por Rosa era grande demais para ter ela como uma amiga. Meu pai, novamente, me ajudou. Disse-me sobre como conquistou minha mãe; com uma flor. Ele me ajudou a escolher a mais bela flor no cominho da escola, e eu a levei, junto de minha apreensão e medo, e paixão. Assim que cheguei fui decidido até Rosa, rodeada de amigos, que também eram meus amigos, mas não tão amigos assim -quem sabe nem tão amigos dela também. Eu comecei a falar algumas coisas, que nem me lembro devido ao nervosismo da ocasiãoou quem sabe pela vontade do meu cérebro de esquecer tal momento. Eram coisas românticas, coisas do meu eu mais profundo, coisas mais sinceras que alguém possa declarar a quem se ama. Eram coisas estúpidas. Eu finalizei entregando a flor para Rosa, junto a meu pedido de namoro. As pessoas à volta não pareciam acreditar. Nos segundos de hesitação notei que algumas seguravam o riso, outras pareciam assustadas e umas não fizeram questão de disfarçar nada. "Eu não vou aceitar isso, que brega, Felipe" Rosa atirou em meu peito. Irritada, jogou a flor no chão. "O que você estava pensando? Somos amigos! A-mi-gos!" fuzilou-me. "E o que você falou? Não entendi metade, putz", era um Hiroshima e Nagasaki. Todos ao redor podiam rir, agora. A cena a seguir pode ser imaginada por você aí, para mim já dói escrever até aqui.
Rosa, minha linda ordinária, continua com seus amigos e uma parte do meu amor. Mas eu... Ah, eu... Não sou mais o Felipe de frases românticas. A garota simples e romantizada mostrou-me que o amor de nada vale hoje em dia. Uma rosa é uma rosa. Todo o amor que poderia eu sentir, errou o alvo, caiu com a rosa, apodreceu com a rosa e não pode ser recuperado.
Eu sou um garoto normal, um garoto qualquer, aluno da 1901. Segui até meu lugar, no fundo, tentando procurar aquele rosto. Em vão. Mal sabia eu que Rosa estava em meio àquele grupinho. Rosa era conhecida, popular, assim que chegou. Uma garota como ela certamente atraia atenção, mas isso não lhe retirava a simplicidade e simpatia. Naquele momento - e durante um bom tempo, eu não sabia que estava perdidamente caidinho por ela. A professora fez o favor de me apresentá-la, pois, não haveria modo de eu saber por conta de minha timidez, frente a ela. "Esta é nossa nova aluna, Rosa", disse, sem pompas. Rosa?
A cada dia que se seguia eu conhecia mais e mais Rosa, à distância. Era mudo para ela. E ela o mundo para mim. Ela tinha os cabelos naturalmente lindos e negros, os quais enrolava as pontas algumas vezes nas aulas mais estendidas. Sua boca pequena e vermelha, suas sobrancelhas bem definidas na pele branca. Seu nariz discreto e fino. Seus olhos cansados e, paradoxalmente, vívidos. Suas mãos pequenas e, de longe, macias. Seus gestos calmos e fala bem pensada. Eram todos esses detalhes perfeitos.
Depois de meses naquela escola, Rosa era mais conhecida que eu em anos. Talvez ela não conhecesse tanta gente que a conhecia, como eu. Talvez. Na aula de educação física, lá estava eu, disposto, sem ironia. E ela disse, de longe, "Ei, Felipe!", eu apenas virei em sua direção e esperei que ela se aproximasse. "Tudo bem?", ela perguntou. Eu quase não respondi tão encantado com as sutis sardas que corriam da esquerda para a direita abaixo de seus olhos e eu nunca percebera. Respondi, então, mexendo a cabeça para cima e para baixo."As meninas falaram que eu devia falar com você sobre o trabalho de filosofia", ela disse e eu perguntei, "Como assim?". Ela prosseguiu, "Elas me disseram que você saberia me explicar melhor o que é para fazer, pode?". Acho que até poderia ser visto o sorriso em meus olhos ao ouvir aquelas falas direcionadas a mim. Ela poderia ter me xingado que eu estaria feliz por ter me dado alguma atenção. "Claro. Olha, Aristóteles dizia que ..", ela me cortou, "Não", e deu o sorriso mais lindo, concluindo, "Não agora. A gente tem o final de semana para estudar" e eu apenas, mais uma vez, concordei mentalmente com o que ela dizia, e ela falou, "Será que você pode ir lá em casa amanhã?", eu pirei, muito, e aceitei.
No sábado, lá estava eu, feliz da vida. No quarto dela, esperando uns lanchinhos feitos pela mãe dela. Expliquei a ela o trabalho de filosofia, e, com o tempo sobrando, estudamos matemática. A mãe dela avisou que meu pai estava a minha espera para me levar para casa. Rapidamente Rosa se despediu de mim, sem antes dizer que foi muito bom estudar comigo naquela tarde. Eu não pude acreditar. Até dois dias antes eu era apenas um carinha que ela pediu uma informação há meses, e que ela nem lembrava mais e naquele momento... Bem.,. Eu não sei.
Na segunda-feira eu sentia que precisava falar com ela e, encorajado pelas palavras do meu pai, disse a Rosa, "Oi". Ela educadamente respondeu, me desejando bom dia, também. Foi o bastante para mim. Conforme o passar dos dias e semanas, o fim do ano se aproximando, eu me via cada vez mais envolvido a ela e, achei, ela a mim. Meu pai me incentivava cada vez mais, e dava resultados. Logo eu e Rosa éramos melhores amigos. Me sentia bem. E queria mais. O amor que eu nutria por Rosa era grande demais para ter ela como uma amiga. Meu pai, novamente, me ajudou. Disse-me sobre como conquistou minha mãe; com uma flor. Ele me ajudou a escolher a mais bela flor no cominho da escola, e eu a levei, junto de minha apreensão e medo, e paixão. Assim que cheguei fui decidido até Rosa, rodeada de amigos, que também eram meus amigos, mas não tão amigos assim -quem sabe nem tão amigos dela também. Eu comecei a falar algumas coisas, que nem me lembro devido ao nervosismo da ocasião
Rosa, minha linda ordinária, continua com seus amigos e uma parte do meu amor. Mas eu... Ah, eu... Não sou mais o Felipe de frases românticas. A garota simples e romantizada mostrou-me que o amor de nada vale hoje em dia. Uma rosa é uma rosa. Todo o amor que poderia eu sentir, errou o alvo, caiu com a rosa, apodreceu com a rosa e não pode ser recuperado.
terça-feira, 29 de julho de 2014
O dono da dor
No início da noite de hoje, eu a vi. Estava perto e intocável. Não pelo vidro translúcido da janela do ônibus, mas pela covardia minha. Afinal, mesmo que eu pudesse sentir sua respiração, me faltaria voz, ato.
No início da noite de hoje, no ônibus silenciado pelos fones, conheci o Acaso, o dono da dor. O Acaso é cruel. Inescrupuloso. Perverso. E outros adjetivos similares. Ele, o Acaso, tornou alguns segundos despretensiosos em momentos de martírio. Permitiu que eu a nota-se durante aquele crepúsculo. Permitiu que meu encantamento inicial e fixação contrastasse com a distração e espontaneidade dela, ali, na calçada, aparentemente esperando alguém - que não eu, em meio às pessoas que passavam. Me permitiu que apreciasse seu olhar, seus movimentos. Em um deles sacou o celular e, como de costume, tirou fotos. "O amor é livre", era a inscrição no muro surrado, a qual ela se pôs, rapidamente, a fotografar. Quanto a isso, devo discordar. O amor não é livre. Ele se prende nas algemas da rejeição.
No início da noite de hoje o dono da dor me desprovou. A certeza de que a dor, da qual falavam Bukowski, Pessoa, de Azevedo, Neruda e outros, era puro cunho sentimentista e romântico, caíra por terra. A dor existe. Física. E pode parecer bobagem, mas, realmente, no coração. Claro que existem milhares de tipos de dores. Mas as do coração não se medem. Não se comparam. Se sofrem, no meio da noite de hoje.
sábado, 19 de julho de 2014
Coisas que se passam na minha mente quando ninguém parece existir, além de mim
Nos braços da Inquietude me encontrava em uma dessas madrugadas. Achando, eu, estar sozinho em meio às coisas que pensava esbarrei na Curiosidade, espaçosa que só. Se mostrando interessada, me segurou, queixando-se da Solidão:
- Espere .. - disse, e eu a atendi. Sentamos no banquinho da praça e ali eu já não podia notar as horas.
Ela, a Curiosidade, me indagava sobre muitas coisas. E sobre essas coisas eu tentava lhe dar respostas satisfatórias. Entretanto, ela não se contia, e eu bem que gostei. Era um exercício de imaginação responder à ingênua Curiosidade. Ela me questionou tantas coisas, mas, uma delas é o motivo de meu escrito:
- O que é o Impossível ? - ela perguntou. Não queria lhe entregar uma resposta simples ou qualquer coisa ilusória. Pois, eu mesmo queria saber o que era esse tal Impossível.
Certamente, eu não saberia, uma vez que nunca fiz mais do que estava ao meu alcance. Mas a Curiosidade, tão criança, me fazia querer descobrir. Foi quando pensei em alguém que poderia saciar-nos essa dúvida.
Indaguei o Sr.Tempo sobre o que seria o Impossível. O Tempo, soberbo, me ignorou. Por um momento tive medo e só depois de anos alguém me trouxe a resposta. Eu, alguém que não conhecia muito bem, mas que trazia um ar familiar. Ele parecia falar com autoridade sobre muitos assuntos. E por mais que ocupado, o Eu me disse, em tom pesado:
- O Impossível só existe para aqueles que esperam que o Tempo lhe traga alguma coisa.
Foi o que eu disse para Curiosidade, que, enfim, me deixou descansar.
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